Descobri espirrando algo
completamente inesperado: um resfriado pode ser algo extremamente bom. Não me
levem a mal, não estou dizendo que gosto de ficar doente, que sinto prazer na
dor e tal e tal. Nada disso! Apenas parei para perceber uma
coisinha que às vezes, por hábito, preguiça, medo, mediocridade, deixamos de
sentir. Meu corpo amolecido por esse resfriadinho, coisa à toa, não se
preocupem, parece tão mais leve! Completamente concentrado na sua recuperação,
focado na visão de alegria que, ele sabe, todo corpo quer experimentar. Meu
corpo antes do resfriado estava em desespero. Pesado, cheio de angústias, e os
demoniozinhos faziam festa no inferninho. Agora, meio xoxa, com sono e aérea,
penso no meu bem. No meu coração, nos meus pulmões. Tomo remédio, bebo chazinho.
Olho para minha carinha cansada no espelho e me abraço, como se abraça uma
criança chorosa. Deixo os outros pensamentos pra lá. Tenho que estar aqui,
completa, expectorante, espirrante. Tudo para fora, finalmente.
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