a tv está ligada na sala e não sei
se quem a assiste é meu irmão ou minha mãe;
ao mesmo tempo em que uma maritaca migra
de árvore a outra, de galho em galho
e um homem de azul (imagino que seja a cor)
fura uma parede majestosa ou miserável.
nunca se sabe!
os poetas, tão confusos, tão danados
porque insistem em empreender essa tarefa,
sempre tão mal-sucedida e de igual
tão necessária,
que é a de empurrar pra fora um
minguado, raquítico poema prematuro;
são essas meninas e meninos hipocondríacos
que à noite sonham e dormem de olhos abertos.
tento de algum órgão vital jogado às moscas
reaprender a estratégia abandonada: esquecer
o abismo que espera esse e todos os poemas;
ou antes,
lembrar o abismo, sabê-lo, proclamá-lo:
o mundo precisa do amor de um poeta
precisa?
se nas imagens abrigou-se, bem sem querer, a eternidade
e a eternidade é o nada mais completo
e insaciável.
diante da guerra, diante da fome e das invejas
olha o poema.
e com os olhos de quem?
de um assustado, de um farto, de um comedido?
de um furioso, de um desejoso, de um opaco?
qual será olho do poeta
nesse mundo que não vê
e que vê tudo?
por que olhar, se há o risco
de um voyeurismo vulgar?
em meio às satisfações da pornografia
o poema tenta?
o poema cria, incorpora, dilata o desejo?
por que, por que escrevo?
por que antecedo?
por que termino antes do suspiro
derradeiro?
respondo na esperança de uma esperança:
não há nada mais que eu possa fazer.
se quem a assiste é meu irmão ou minha mãe;
ao mesmo tempo em que uma maritaca migra
de árvore a outra, de galho em galho
e um homem de azul (imagino que seja a cor)
fura uma parede majestosa ou miserável.
nunca se sabe!
os poetas, tão confusos, tão danados
porque insistem em empreender essa tarefa,
sempre tão mal-sucedida e de igual
tão necessária,
que é a de empurrar pra fora um
minguado, raquítico poema prematuro;
são essas meninas e meninos hipocondríacos
que à noite sonham e dormem de olhos abertos.
tento de algum órgão vital jogado às moscas
reaprender a estratégia abandonada: esquecer
o abismo que espera esse e todos os poemas;
ou antes,
lembrar o abismo, sabê-lo, proclamá-lo:
o mundo precisa do amor de um poeta
precisa?
se nas imagens abrigou-se, bem sem querer, a eternidade
e a eternidade é o nada mais completo
e insaciável.
diante da guerra, diante da fome e das invejas
olha o poema.
e com os olhos de quem?
de um assustado, de um farto, de um comedido?
de um furioso, de um desejoso, de um opaco?
qual será olho do poeta
nesse mundo que não vê
e que vê tudo?
por que olhar, se há o risco
de um voyeurismo vulgar?
em meio às satisfações da pornografia
o poema tenta?
o poema cria, incorpora, dilata o desejo?
por que, por que escrevo?
por que antecedo?
por que termino antes do suspiro
derradeiro?
respondo na esperança de uma esperança:
não há nada mais que eu possa fazer.
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