Caso de Morte


Trata-se de um caso de morte. Disse o doutor. A mulher aflita, olhos perdidos, tentando voltar. Caso de vida ou morte, né, doutor? Nada. Ele repetiu, definindo as sílabas nos lábios ressequidos, que não, era ca-so de mor-te. E ponto. A mulher aflita ficou sem entender. Nunca tinha ouvido uma coisa daquelas. Caso de morte, sem vida. O doutor tinha inventado uma expressão. O caso era tão grave, tão grave, que foi preciso uma expressão nova, uma frase nova, que parecia errada, que parecia incompleta porque os ouvidos de todo mundo estavam acostumados a "caso de vida ou morte". 

A mulher aflita em casa, olhos perdidos ainda, olhando da janela a Nossa Senhora de Copacabana de umas dez e tantas da noite, só podia pensar no que disse o doutor Juarez, médico antigo, encarquilhado, mas sempre certeiro. Ela não podia compreender tanta certeza. A vida sempre foi tão incerta.... Ela esperava uma coisa, vinha outra. Queria casar e ter dois filhos. Casou, casou. Mas o marido morreu na noite de núpcias. Era hipertenso. Jovem, trinta anos. Mas morreu. E ela embaixo, sentindo um peso enorme. Depois disso, desistiu de casamento e de filhos. Nas vezes, poucas vezes, em que saiu com alguém após a morte do marido, pediu para ficar em cima. Ainda assim, quando estavam chegando longe, vinha-lhe uma tremedeira não se sabia de onde - e os coitados achavam que seria a pequena morte. Não. Era a grande, a terrível morte de noventa e dois quilos. 

*

Batia-lhe sempre em pensamento a incerteza enorme do mundo. Tinha vivido os tempos de inflação. Num dia conseguia-se comprar a carne e o arroz; no outro, só o arroz. Era difícil fazer planos, aprendeu ainda mocinha. A mãe era o contrário. Planejava, planejava. Dizia que era preciso estar preparado pra tudo: pro dilúvio, pra morte, pra praia de amanhã... Quando o pai morreu, estava tudo já pronto. Mesmo com as contas apertadas, a mãe guardava o dinheirinho da morte. Fizeram um velório simples, porém digno. A mãe acreditava que assim o morto ficaria feliz e iria em paz, na graça de Deus. Devota de Santa Clara, a mãezinha.

A mulher aflita havia sido um dia a menina aflita. Tinha pavor dos santos da capela. Olhavam-na de cima a baixo, perscrutando seu corpo em busca de qualquer indício de pecado. Ela abaixava os olhos, fingia que não percebia. Mas sabia direitinho a malícia dos santos. Em casa pensava. Malditos santos fofoqueiros! Ficam lá, paradinhos, esperando a gente escorregar. Então vão lá e... pronto! Deus fica sabendo de tudo. E castiga feio.

Esperava chegar em casa pra confabular consigo mesma, porque na capela os santos tinham olhos e ouviam pensamentos. Olhava da janela a Gomes Freire, feia e maltrapilha. Ela e a rua. Pensava um monte de obscenidades enquanto passavam os rapazes do colegial. Naquela janela permitiu-se qualquer pensamento. Santos malditos, rapazes bonitos. Parecia até uma menina, não uma menina aflita. 

Até que chorava. Chorava na janela. Chorava sem saber o porquê. Chorava lágrimas, chorava raivas, chorava medos, chorava horas. Inundava a Gomes Freire. Alguém lá de baixo reclamava. "Quem é que está chorando aí?! Molhou meu chevete todinho! Vai ter que pagar, viu"? Seu choro atrapalhava o andamento das coisas, ela sabia. Um bebê chora, acorda seus pais. A mãe sonha com uma praia e Burt Lancaster. O pai com Brigitte Bardot. De repente, um choro agudinho, enjoado. Papai e mamãe acordam. Existe ali uma coisa que eles já haviam esquecido, o bebê. Existe ali algo que todos já tinham esquecido: a menina aflita. O choro alheio incomoda muito mais. Descobriu no dia em a tia Henriqueta chegou no sobrado da Gomes Freire com os olhos saltados de sangue, tremeliques pelo corpo todo, voz rouca, postura encurvada. Demissão. Tia Henriqueta trabalhava numa fábrica de roupas. Era ruim o salário, era ruim ter de ir todo santo dia pra lá. Inspirar aquele ar doentio, de gente infeliz. No entanto, era o que lhe dava sustento. Tinha dois filhos, Márcio e Claudete. O marido ganhava pouco também, era mecânico. Precisava do emprego. Mas nem pedir de joelhos (por favor, por favor, não façam isso! preciso muito desse emprego, por favor!) foi o suficiente. Era preciso cortar gastos a fim de garantir que a empresa não fosse à falência, disseram. Chegou no sobrado da Gomes Freire arrasada, tão perdida que andava de um lado para o outro repetindo a mesma triste história da demissão. A mãe, rainha dos planos e contra-planos, tentou emprestar o dinheirinho que estava na caixa de emergências para a família. Henriqueta era família. Recusou o dinheiro, disse que não precisava. Ela lavaria roupa pra fora, entregaria quentinha, o que fosse. Parou de chorar. Era orgulhosa a mulher. Tanto que quando a menina aflita a viu chorar, com aqueles olhos vermelhos, aquelas lágrimas brancas, sentiu um incômodo tão grande que teve vontade de tapar a boca da tia com as próprias mãos. Teve raiva, não entendeu. Depois pensou, pensou e viu. O choro dos outros tira a gente do lugar. Tira o orgulho da tia Henriqueta (que nos dá tanto orgulho!), tira a cara sorridente da caixa de supermercado, tira o semblante cruel do bandido, tira a ruga antipática do seu Nestor açougueiro. O choro é o som mais perturbador do mundo, ela entendeu. As máscaras caem. São todos humanos, precisam de colo, carinho, de palmadinhas nas costas, beijinhos nos dedos feridos. 

O pior é quando quem chora é um desconhecido. Tia Henriqueta era da família. Quando seu Nestor açougueiro (a mulher aflita lembrava bem dos seus dentes podres) começou a chorar no meio de uma negociação com outro freguês (tá muito caro! não dá pra fazer por menos?), a menina aflita ficou mais aflita. Porque não sabia o que fazer. Seu Nestor era um porco, mal-educado, mandava as crianças irem à merda. Mas sentiu vontade de consolá-lo. Está tudo bem, está tudo bem. Vai passar. Pensava e não dizia. Ela, uma menina aflita de treze anos. Ele, um açougueiro velho e desbocado. Como se aproximar? Como dizer que está tudo bem, vai passar? Não dava. Sentiu uma angústia no peito que começava a crescer (como doía!), quis chorar também. Teve raiva. Não podia fazer nada, nem por si mesma nem pelo velho Nestor. Saiu correndo e deixou pra lá o quilo de carne moída que a mãe tinha pedido pra ela comprar. Em casa, levou bronca, sentiu-se pior. Trancou-se no quarto e ficou espiando a Gomes Freire da janela. Um vira-lata cheirou o lixo e abanou o rabo. Deve ter achado coisa boa. Cães eram felizes, vira-latas inclusive.

Virou a cabeça e viu uma mulher descalça. Há quanto tempo ela não chorava? E se chorasse nesse instante, a plenos pulmões, em plena luz do dia, o que os outros fariam? Como amparar uma mulher de rua, dizer com olhos doces que está tudo bem, vai passar? Não está tudo bem, não vai passar. Assim todos passam, ignoram. Entretanto, há em certos corações a mesma angústia da menina aflita, que quer abraçar e não pode, que quer falar e não pode. Rezou na janela. Pra qualquer santo, pra qualquer deus. Rezou pela mulher descalça e pelo cão, que sua alegria fosse protegida. Rezou e sentiu-se bem. Pequeno instante de paz. Vai ficar tudo bem. A mãe bateu na porta, tinha lanche na mesa, e ela havia esquecido a carne esquecida. 

*

Conheceu Paulinho na praia. Ele vivia no mar de Copacabana. Era um boa-vida. Vinte e cinco anos, morava no Centro com a avó. A coitada bancava tudo: o mate gelado, a cerveja com os amigos, as sessões românticas no Cine Palácio. Era só falar mansinho, e ela tirava as notas embrulhadas em papel cheiroso do armário e as entregava ao único neto. Vá se divertir, meu filho, que a vida é curta! Ele obedecia. Pegava sol na praia quando tinha sol, pegava um cinema quando tinha a companhia certa. Vida fácil. 

A moça aflita foi à praia depois de muitos anos (a morte da mãe, trabalho, tristeza) por insistência de uma amiga do escritório. Colocou um maiô velho, empoeirado, ficou cheia de vergonha quando tirou o vestido e deixou à mostra o corpo pálido e magrelo envolto na peça roxa velha estranha. Vinte e sete anos. Queria casar e ter dois filhos, Daniela e Diego. Queria casar não porque sonhava em entrar na igreja acompanhada do pai. Até porque não tinha pai, e na igreja os santos olham e ouvem pensamentos. Queria casar porque sonhou com os meninos do colegial, com os rapazes bonitos do vaivém da Nossa Senhora de Copacabana, com os mocinhos dos filmes que assistia no Odeon. 

Tinha saído com um rapaz só na vida. Marcos. Gostava de livros, cinema e marionetes. Seu pai construiu várias pra ele, cada uma tinha um nome. Das mais queridas a mulher aflita sempre lembrava: Dagoberto, Daniela e Diego. Depois que Marcos morreu, de pneumonia, ela decidiu ter dois filhos com nomes de marionetes: Daniela e Diego. Dagoberto não, porque era um nome muito feio. 

Marcos tinha dezessete e ela dezesseis. Eram colegas de escola. A mulher aflita não se lembrava de como eles tinham se aproximado. Talvez por causa dos livros. Ou do cinema. Mas em duas semanas já estavam passeando de mãos dadas, cochichando palavras bonitas no ouvido, brincando de teatro de marionetes. A moça aflita sabia muito bem: estava apaixonada.

Marcos morreu num domingo de sol. Ela tinha pedido à mãe que costurasse o vestido vermelho que rasgou por alguma estripulia (às vezes a menina aflita era a menina levada). Colocou-o no corpo cuidadosamente, com medo de que o vestidinho rasgasse mais uma vez. Combinou-o com meias brancas e sapatos pretos envernizados. Parecia bonita no espelho.

Saiu de casa sorridente, imaginando os dentes de Marcos, as bochechas de Marcos, os olhos de Marcos. Ele gargalhava, dizia que o vestido vermelho era lindo, que as meias brancas eram lindas, que os sapatos pretos eram lindos... Bateu na porta da casa número 16 e ninguém atendeu. Deviam ter saído. Ela não tinha avisado que iria. Surpresa!!! Já não via Marcos há mais de uma semana, porque ele estava resfriado, e a mãezinha não queria que a filha também adoecesse. Dava trabalho, dava despesa. Ela calculou os dias – nove – e pensou, por que não? Nove dias é tempo mais do que suficiente para alguém se curar de um resfriado. Mãe, posso ir visitá-lo? Já fiz meu dever de casa, já arrumei o quarto. E já faz nove dias que não o vejo. Posso ir? Pode ir. O vestido no corpo, as meias, os sapatos. O ruge nas bochechas. Assim que a moça aflita saiu, a mãezinha riu. Está apaixonada!

À noite ligaram. Era Silvia, mãe de Marcos. Chorou nove dias e meio. A tristeza maior que a felicidade. Sentiu que alguém havia feito de propósito. Sentiu que estava nas mãos de um ser maligno, que a segurava por dez fios delicados de náilon.

Daniela e Diego. Esperou por eles.

Paulinho chegou na praia de Copacabana sozinho. Ajeitou suas coisas na areia, pediu pra alguém vigiá-las. Ela ouviu, sentada numa cadeira de arco-íris, enrolada numa toalha velha pra esconder o corpo roxo. A voz dele era doce, suave. Pouco combinava com sua estatura de mais de metro e noventa. A voz ficou no ouvido, perto e longe. Perto e longe. Perto e longe. Resolveu esperar o rapaz voltar do mar. O dia estava nublado, quase se arrependeu de ter aceito o convite da amiga do trabalho. Quase, porque o rapaz de voz doce poderia ser sua nova invenção. E foi. Voltou do mar, salgado e brilhante. Veio pra perto, deitou-se na areia, olhou pro céu. Sorriu, e ela sorriu. Duas e dez. Ele perguntou as horas, ele perguntou as horas (a voz doce, a voz suave). Era pra ela, a pergunta. Duas e onze. Obrigado. O coração perto e longe, perto e longe, sem decidir-se. O mar se agitou. As ondas ficaram fortes, impetuosas. Tempo fechado. Tempo escorrendo. Duas e doze, duas e treze, duas e quatorze, duas e quinze... Levantou-se da cadeira, jogou a toalha velha num canto, correu para o mar. A amiga do trabalho gritou que era ela louca, o mar estava bravo, perigoso, sai daí. Mergulhou. A água estava morna. Pensou no homem do mar, no homem da areia. Ouviu no fundo a voz, sentiu a pele morna, o sal, o brilho. Quis engolir a água do mar, maiô roxo no meio do tanto, ilha que afunda sozinha, mulher que deseja, mulher aflita que deseja. Quando furou uma onda em direção ao céu, viu que estava chovendo. Olhou para a areia, e a amiga de pé, gritando. Ao lado dela, o homem. Você é louca, é? Eu quase pedi pra esse rapaz te tirar de lá. Olha a vergonha! Vergonha, vergonha. Lembrou-se do maiô roxo, da pele branca, do corpo magro. Teve vontade de chorar. Correu, colocou o vestido, guardou as coisas sem dizer nada. O que tá acontecendo, hein? Fala, me fala. Ele falou: uma pena que hoje esteja chovendo. A amiga olhou confusa, pra ele, pra ela. Ela falou: uma pena mesmo. Tanto tempo que não vinha à praia...

Paulinho recolheu suas coisas (uma mochila, uma canga azul, uma garrafa d’água) e as acompanhou. A areia grudando no pé, difícil andar, difícil respirar. Ele contava – a voz doce, a voz suave – de um surfista que quase morrera afogado. Quase caiu.

Naquele dia, bebeu cerveja com Paulinho e a amiga. Papearam os três até as dez da noite. Papearam os dois até as cinco da manhã. A mulher aflita e Paulinho. Começaram a namorar três meses depois. Paulinho arrumou emprego no escritório em que ela trabalhava. Contínuo. Queria mudar, ser um homem responsável. Contínuo. Queria um futuro, casa própria, filhos. Deixou a avó para morar com a mulher aflita. Casaram-se num domingo de sol, vinte e três de setembro. Os preparativos para o casamento foram muito estressantes, o coração não aguentou. Filhos, casa própria, futuro. O coração não aguentou. Não fazia exames, não sabia que era hipertenso. Os médicos explicaram que, mesmo sendo jovem, sem remédios para controlar a pressão ele poderia morrer a qualquer momento. E morreu. Na noite de núpcias, deixando para sempre seu corpo sobre o dela.

*

Desmaiou no elevador do prédio da Nossa Senhora de Copacabana. Um casal de vizinhos  a levou para o hospital. Acordou com uma luz branca horrível no rosto.

Voltou a dormir.

Acordou de novo, sozinha num quarto branco horroroso. A enfermeira apareceu depois. Deu-lhe uma sopa rala, com gosto de nada. Deu-lhe um sorrisinho rápido e saiu.

O médico apareceu depois. Precisamos conversar, minha querida. Silêncio de hospital. Disse que não era pra se desesperar, o desespero é pior. Ficou desesperada, a mulher aflita. O que é, doutor? O que é que eu tenho? Silêncio de hospital. Sentiu na boca o gosto de nada, o coração disparou. A menina aflita na capela, na janela, na cama do hospital. O que é que eu tenho?! O que é que eu tenho?! O que é que eu tenho?! 

Trata-se de um caso de morte.

Caso de vida ou morte, né, doutor? Ele disse que não. Confirmou: ca-so de mor-te. Ela não entendeu, mas decidiu não perguntar mais. Teria de descobrir sozinha. À noite teve alta e foi pra casa.

Ligaram. Era a vizinha, querendo saber como ela estava. Estou bem, não se preocupe. O médico disse alguma coisa? Não. Preparou um sanduíche de atum e bateu frutas no liquidificador para fazer um suco. Comeu, bebeu, sentiu o gosto forte do atum, o gosto cítrico da laranja, o gosto doce do mamão.

Foi à janela. Nossa Senhora de Copacabana de umas dez e tantas da noite.

Caso de morte. Pensou. O médico dissera aquilo com tanta certeza que ela teve medo. A vida sempre foi tão incerta... Queria uma coisa, vinha outra. Papai, mamãe, Marcos, Daniela, Diego, Paulinho... e tantos outros. Caso de morte. O médico sabia? Da febre, do câncer, do infarto, da pneumonia? Da capela, da janela, da tristeza maior que a alegria? Ele sabia. Estava tudo dentro dela, apareceu nos exames, com certeza! O corpo de Paulinho ainda pesava. Nestor e Henriqueta ainda choravam. Caso de morte (nunca mais sonhou, nunca mais foi ao cinema, nunca mais vestiu o maiô roxo para nadar).

Chorou. Caso de morte. Tinha feito os exames.

Poderia nascer a qualquer momento.

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