Passar a limpo o texto, eliminar os rudimentos da imundície do mundo. Não passar a limpo depois, com olhos díspares, de outro. Passar a limpo enquanto se escreve, com olhos de águia abatida. Ler enquanto se escreve, fazendo a partição definitiva do ser. Passar os olhos no texto, voltar ao princípio, imaginar o seguinte. Passado e futuro e presente. O texto já nasce defunto. Quem escreve encobre-se de cravos de morte, cava o próprio algar. Existe algo de abominável em todo texto: um cheiro de coisa podre. Os pensamentos deitam no covil das palavras. Se dissesse que me debato nas tramas de um texto, estaria mentindo. O sofrimento é suspenso quando se escreve. Fala-se do sofrimento, nunca se sofre. Fala-se do amor, nunca se ama. Um texto também não é um prolongamento das emoções vividas. Mesmo um poema é uma análise. Que ritmo corresponderá às ondas do mar? Que rima será desfeita? Pensar quando se escreve é muito distinto, completamente alheio ao pensamento de Deus. O texto é uma forma fúnebre, sem lampejos.
Comentários
Postar um comentário