O
pão que o diabo amassou – Praia Vermelha
Eu
não estava lá. Nasci doze anos depois. Quem estava lá era o meu pai, rapazote
de dezoito anos, sentinela da madrugada no quartel da Praia Vermelha. Era bem
tarde, a rua vazia, silêncio sepulcral. O praça Maurício parado na entrada do
quartel, sentindo sono, sentindo tédio. Completamente sozinho. O ar era frio e
salgado, trazia o mar em suas moléculas. E o gosto do sal na língua lembrava a
fome, o estômago roncando. Mas era preciso aguentar. Esperar que o dia
amanhecesse para deixar o posto. Faltavam muitas horas ainda. O mundo parecia
adormecido, estático, vazio. O estômago roncava e o sono ficava pior. Cada vez
mais pesadas, as pálpebras. Poderia até ter adormecido, de pé mesmo, fardado.
Se não tivesse vindo do além uma voz trovejante, encolerizada - uma voz
demoníaca. O pracinha se assustou. Era o tal. Diabo. Demônio, Satanás, Sete
Pele, Coisa Ruim, Belzebu etc, etc. Negro, mais de um metro e noventa. Vestia
uma capa vermelha enorme e surrada. O peito largo e forte completamente nu. Ele
urrava. Dizia ameaças terríveis e repetia: “eu sou o diabo, eu sou o diabo”! O
soldado por dentro morria de medo, a figura diante de seus olhos era
horripilante. Mas fingia desdenhar de Lúcifer, balançando a cabeça com ironia
toda vez que o demônio gritava; “eu sou o diabo, eu sou o diabo”! A
dissimulação do praça surtiu efeito. O demônio baixou a guarda e falou
baixinho: “olha só camarada, é que na verdade eu tô com fome. Será que você não
me arruma um pão, qualquer coisa”? Era só um pobre diabo.
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