Aparições Fantasmagóricas III


Uma rosa no peito – Rua do Matoso

Dia de escola, rotina. Acordar, terminar os deveres, tomar banho, vestir a sainha azul de pano grosso, almoçar, escovar os dentes. Sair e pegar o 433 laranjão. Minha mãe empurrava um carrinho de bebê, vigiava as duas crianças em idade escolar que iam apressadas à frente, meu irmão e eu. Ás vezes, as rodas do carrinho travavam, por efeito do tempo (o carrinho de bebê era antigo; pertencera a um dos meus primos gêmeos) ou pela teimosia das pedras irregulares da calçada. Minha mãe ficava ainda mais para trás. A calçada era larga, branca, radiante. Desembocava na esquina com a Rua Doutor Satamini, que uma amiguinha de escola chamava Santa Mini, e eu imaginava uma santa ardilosa e sombria, que aparecia para assustar as crianças. Naquela esquina, e eu ia distante de minha mãe, apareceu uma senhora muito enrugada, baixinha. Olhos escuros, pele morena. Vestia-se de preto: o lenço na cabeça, o vestido rendado, a manta, as meias, os sapatos. No peito, sóbria e solene, levava uma rosa vermelha. Bela, vistosa, quase alegre. Não fosse a moldura entristecida. A mulher não chorava, mas percebi num segundo sua tristeza profunda. Ela olhou para mim, parecia inquirir sobre meus pensamentos e, ao mesmo tempo, ostentava nos olhos a dor, a melancolia. Talvez quisesse que eu as visse, que eu as sentisse também. Ela então passou, não deixou rastros pela calçada. Eu, transtornada pela aparição dolorosa, fiquei em silêncio por alguns segundos. Depois, recuperado o fôlego, perguntei se os outros haviam visto aquela imagem apavorante. Nada. Meu irmão não viu. Minha mãe não viu. Pensei nela nas semanas seguintes. E até hoje não posso responder se é mais assustador pensar na figura como um fantasma ou como uma mulher desse estranho mundo que habitamos. 

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