Uma
rosa no peito – Rua do Matoso
Dia
de escola, rotina. Acordar, terminar os deveres, tomar banho, vestir a sainha
azul de pano grosso, almoçar, escovar os dentes. Sair e pegar o 433 laranjão. Minha
mãe empurrava um carrinho de bebê, vigiava as duas crianças em idade escolar
que iam apressadas à frente, meu irmão e eu. Ás vezes, as rodas do carrinho
travavam, por efeito do tempo (o carrinho de bebê era antigo; pertencera a um
dos meus primos gêmeos) ou pela teimosia das pedras irregulares da calçada.
Minha mãe ficava ainda mais para trás. A calçada era larga, branca, radiante.
Desembocava na esquina com a Rua Doutor Satamini, que uma amiguinha de escola chamava
Santa Mini, e eu imaginava uma santa ardilosa e sombria, que aparecia para
assustar as crianças. Naquela esquina, e eu ia distante de minha mãe, apareceu
uma senhora muito enrugada, baixinha. Olhos escuros, pele morena. Vestia-se de
preto: o lenço na cabeça, o vestido rendado, a manta, as meias, os sapatos. No peito,
sóbria e solene, levava uma rosa vermelha. Bela, vistosa, quase alegre. Não
fosse a moldura entristecida. A mulher não chorava, mas percebi num segundo sua
tristeza profunda. Ela olhou para mim, parecia inquirir sobre meus pensamentos
e, ao mesmo tempo, ostentava nos olhos a dor, a melancolia. Talvez quisesse que
eu as visse, que eu as sentisse também. Ela então passou, não deixou rastros pela
calçada. Eu, transtornada pela aparição dolorosa, fiquei em silêncio por alguns
segundos. Depois, recuperado o fôlego, perguntei se os outros haviam visto
aquela imagem apavorante. Nada. Meu irmão não viu. Minha mãe não viu. Pensei nela
nas semanas seguintes. E até hoje não posso responder se é mais assustador
pensar na figura como um fantasma ou como uma mulher desse estranho mundo que
habitamos.
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