Aparições Fantasmagóricas II


Amarre meus sapatos! – Rua Haddock Lobo

Carnaval de 2012. Sambódromo lotado, noite infernal. Calor, fogos de artifício, cerveja escorrendo na sarjeta, cheiro de mijo. Turistas alegrinhos espremendo-se num dos portões da Sapucaí. Minha avó, mulher corajosa, que já havia mandado de volta ao inferno as assombrações da casa de Benfica, resolveu me levar num passeio pelo lado B do Carnaval: o lado maldito, escuro, fétido, esturricado. Pelas ruelas transversais à Marquês de Sapucaí, pessoas enfileiradas em cadeirinhas de praia coloridas dividiam a calçada com porcos gigantescos, barulhentos e esfomeados. Atrás da gente enfileirada e dos porcos cor-de-burro-quando-foge, cortiços cinzentos, alguns deles enegrecidos por incêndio antigo. Abandono. Apesar de haver gente habitando aquelas casas, parecia que eu estava visitando uma cidade fantasma. Minha avó me mostrou uma construção imponente, em frangalhos. A edificação havia sido um dia uma prisão. A sensação geral era essa: casas, pessoas, cadeiras, porcos que um dia foram alguma coisa e hoje já não são mais. Foi naquela terça de Carnaval que eu descobri que gente também pode ser fantasma. Longe dos turistas alegrinhos, cada vez mais longe dos batuques e estripulias da bateria de uma escola de samba qualquer, ia descobrindo um mundo misterioso e oculto, de gente esquecida nas calçadas, de ruelas sujas e decadentes, de mulheres prostradas em frente a suas casas à espera do antigo amor. Na rua Haddock Lobo, voltando para casa, uma mocinha morena não deixou que eu prosseguisse meu caminho. Ela se interpôs entre mim e o passo seguinte, pedindo para que eu amarrasse seus sapatos. Por favor, por favor! Eu olhei para seus calçados. Não tinham cadarço. Não sabia o que fazer. Abaixar e fingir que amarrava seus cadarços, sair correndo, dizer que não poderia amarrá-los porque eles não existiam. Olhei para ela no escuro da rua com poucos postes. Desespero. Ela precisava de ajuda para amarrar seus sapatos. Medo. Dei meia volta na calçada e me fui para sempre. 

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