Aparições Fantasmagóricas I


Imagem do Senhor Morto – Capela do Divino Espírito Santo

Não lembro exatamente quando foi, em que dia, em que ano. Eu era pequena. Minha família católica frequentava a igreja quase todo domingo. Morávamos na Rua do Matoso, rua estranha que ficava entre quatro bairros diferentes: Praça da Bandeira, Tijuca, Rio Comprido e Estácio. No Estácio, em frente à estação de metrô, fica a capela do Divino Espírito Santo, ou Divino, como chamam os íntimos. Capela, igrejinha, espaço pequeno, poucos lugares para os fiéis. Chegávamos, minha família e eu, sempre atrasados para a missa. Alguns podem dizer que não éramos bons cristãos. Acredito que têm razão. Como maus cristãos, então, ficávamos sempre depois do último banco de madeira, de pé durante mais de uma (penosa) hora. Eu era pequena, não tinha feito catequese. Quando era chegado o momento da comunhão, os mais velhos iam em fila silenciosa em direção ao altar azul. Eu e meu irmão ficávamos lá atrás, brincando com a água benta na pia de mármore rosado. Até que os mais velhos retornassem para seus lugares. Assim, a missa continuava. Meia hora depois, o padre dizia as bênçãos finais. E despedida. Os fiéis se dispersavam. No pátio ao lado da capela, chão de pedras portuguesas, eu brincava com meus amiguinhos de pique-pega, pique-esconde e outros piques. Não sei se foi numa dessas de pique-esconde que dei com Ele. Ou se foi durante uma comunhão, num afã de curiosidade pela parte da frente da igreja., que eu pouco conhecia. Não lembro. Mas em algum momento eu o vi. Ele, Jesus Cristo - aquele da cruz pequenina - morto em tamanho real (um metro e setenta, mais ou menos), dentro de um sarcófago de vidro, envolto no santo sudário. Meu Deus! Saí correndo. Um morto, um morto. Depois dessa visão, a parte da frente da capela tornou-se perigosa para mim. Pelo lado direito, onde ficava o homem morto, eu não passava. 

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