Buenos Aires, Saara

Faz vento nessa tarde de quinta. Quinta-feira. A tarde é linda. Desço na Avenida Passos. Como gosto desse nome! Avenida Passos: um lugar de passar, um lugar de andar, caminhar, pisar em falso, dar quinhentos passos para trás, outros quinhentos para frente, à procura de sapatos novos. Desci os dois degraus do ônibus e me perdi na Avenida Passos. Aquela gente toda, colorida, estampada, quadriculada sob um sol diagonal. Virei na Alfândega, aquela pândega. Lojas de flores de mentira, de fantasias de Carnaval, lojas de perfumes importados, de mobília provençal, e lojas e lojas e lojas. Para perder-se e nunca mais achar o caminho de volta. Os alto-falantes indicam caminhos: loja de meias, Alfândega, 181. E, como vozes de anjos do Senhor dos Passos, colocam a gente na direção certa. Lá vou eu, na intenção do número 181. Subo as escadinhas estreitas para dar num sobrado apertado, amarrotado, abarrotado de meias. Escolho duas, pago e saio. 

Pela Alfândega, aquela pândega de novo. Ando sem rumo, com a alma profusa. Confesso: poucas coisas me deixam tão feliz quanto andar pelo Saara. Atravessar o deserto de milhões de pontinhos coloridos que podem ser pingentes, luzinhas, lantejoulas. Sentir que sou uma lantejoulinha numa cauda roxa de sereia. Ai, minha Nossa Senhora do Terço, meu Senhor dos Passos! O que sinto quando escuto o coral de vozes indecifráveis de timbres desconhecidos e volumes infinitamente variados? Que alegria misteriosa me faz gargalhar no meio de uma canção natalina? E que me faz andar e andar a esmo, sem necessidade de fim nem meia? 

Entro na Buenos Aires. Uma ventania faz erguer-se um chitão afogueado. Ela quer me mostrar as florzinhas azuis, a trama dos trópicos e a urdidura dos fusos horários. Passo adiante. No tricoline, peixinhos nadam sorridentes, como se tivessem escapado do aquário. Pula um gorgurão elegante, listrado branco e dourado, branco e dourado. E com o vento leste viaja para o alto um shantung milenar. 

Quero brincar com os tecidos, enrolar-me neles como um gato vagabundo. Deitar no tapete de juta, espreguiçar-me no percal macio, roçar minha pele no toque alérgico do lourex. Vestir-me de dourado lamê, como uma diva, e cantar para uma mesa vestida de oxford. 

Dentro do tergal, cheiro os abafados tempos de escola. E pelos furinhos do laise passam meus suores de moça apaixonada. 

O musseline é tão leve! E se por um descuido eu escapar, ele voará atrás de mim pelas finíssimas tramas do infinito. O infinito da Buenos Aires, subconjunto do infinito maior do deserto, por onde passo. 

Comentários

  1. A-m-o seus textos. Que lindo esse! Que ricas metáforas... Te admiro! <3

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