Sua morte foi sem caixão, sem nada.
Nada.
Morreu a 31 de maio de 2012, parada cardiorrespiratória.
A idade ninguém sabia; o nome menos ainda. Um maluco disse
que se chamava Neneca da Silva, mas ninguém acreditou. Porque Neneca não é
nome. Mas isso pouco ou nada, absolutamente nada, importava. Aquilo era um
corpo sem vida, bem defuntinho. A cor era alguma porcentagem maior de verde. As
feições não eram humanas, e os milhares de calos impingiam aos pés uma
aparência de besta.
O corpo foi encontrado em frente ao Banco do Brasil da Rio
Branco. Ali, uma talvez Neneca da Silva pedia esmolas aos clientes do banco,
que diziam quase sempre que não, não tenho dinheiro.
O corpo estava coberto por uma manta colorida, que
certamente tinha pertencido a uma criança numa cama quentinha, história antes
de dormir, reza pro anjinho da guarda, beijo de boa noite, mamãe tô com medo
etc etc.
Vestia uma camisa de playboy, com os dizeres em inglês “I
need the sea because it teaches me”. Jamais ela teria sabido o que significava
aquilo que estampava a camisa branca. O que pouco importava, porque, na
verdade, aqueles dizeres não diziam absolutamente nada.
“Preciso do mar porque ele me ensina”.
Neneca da Silva conhecia o mar?
Deve ter conhecido. Quem sabe Neneca não gostasse de nadar
em dias de chuva? Quem sabe não tivesse um amor todo especial pela praia, pelos
dias que passeava na praia e se jogava no mar? Quem sabe não tivesse sido
vendedora de cangas para turistas e que depois do expediente não curtisse
deitar na areia e ouvir os sons de Copacabana beach?
Neneca da Silva foi uma mulher extraordinária. Nasceu numa
família de dezesseis irmãos. Sete deles morreram ainda crianças. Os outros
foram aos poucos se espalhando por aí. Neneca era a artista da família.
Costurava vestidos tão bonitos que foi convidada por uma vizinha para ir
trabalhar com ela no Rio Grande do Norte. Mas era furada. Neneca foi forçada a
se prostituir. Depois de muitos meses, conseguiu juntar dinheiro e fugiu pro
Rio de Janeiro.
Catou uns trapos velhos numa fábrica de roupas e aprontou
obras-primas da costura. Mostrou pra uma dona que tinha um ateliê em Santa
Teresa. Foi trabalhar lá. Ganhou dinheiro, fez amigos e clientela. Depois de
dois anos, conseguiu abrir o próprio ateliê.
Conheceu um moço bem arrumado na Lapa, depois outro em
Caxias, um terceiro em São Cristóvão e casou-se com o quarto, de Madureira.
Foi morar na Carvalho de Souza.
Teve duas filhas bem gorduchinhas.
Separou-se do marido e voltou pra Santa Teresa. As filhas
foram pra Universidade.
Uma casou e foi pra São Paulo. A outra conseguiu uma bolsa
de estudos e partiu pra Argentina.
Neneca ficou doente. Não conseguia mais costurar. Umas
vizinhas pagavam suas contas e a comida. Mas um dia não puderam mais
ajudar. Pensou em ligar pras filhas. Desistiu. Não queria incomodá-las. As vizinhas tentaram contato com as moças.
Uma não podia ajudar porque estava com dificuldades financeiras (filho pequeno,
financiamento do apartamento); a outra mal tinha dinheiro pra se manter na
faculdade estrangeira.
Neneca começou a perder o juízo, ficou insuportável. As
vizinhas não sabiam mais o que fazer. Tiveram a ideia de interná-la. Lá foram
elas, levando Neneca, que berrava, que esperneava, que se contorcia como um
animal depravado.
Neneca ficou lá dois meses e alguns dias. As vizinhas
pararam de pagar a mensalidade, e Neneca teve que ir embora.
Perambulava pelas ruas dia e noite, falando coisas sem
sentido, gritando para os que passavam que era uma mulher extraordinária, que
costurava vestidos de beleza incomparável. Ninguém acreditava.
Começou a pedir esmolas na hora em que sentiu uma fome
doída. Em frente ao Banco do Brasil, fez para si um lugar
quentinho.
Morreu na noite de 31 de maio de 2012, parada
cardiorrespiratória.
Neneca da Silva?
Costureira de mão cheia?
Mulher extraordinária?
Não sei.
Foi tudo inventado, não nego.
Mas senti a necessidade de dar nome e história a um corpo
jogado no lixão.
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