Não deserto, porque sonho

Pelos da Terra sessenta e
um mares,
peregrinei, à tua procura;
na noite escura, Anjo Umabel,
dei com Alá, o deus do Saara

Em alabanças, graves,
em pares,
homens ornados de pele crua;
à meia lua, Anjo Umabel,
dei com Jeová, o deus da Judeia

Afoguei-me, sem perceber,
que a ilha era, real, baleia;
mas acordou-me um canto assim,
de Rückert ou mestre Candeia,
que dizia no meio ou no fim:
“vivo isolado no mundo”.
Sereia!

Fechei ao canto os ouvidos,
velhos cerumes de Odisseu;
e vindos ágeis do mar Egeu,
cento e cinquenta e
três peixes pescaram, esfomeados,
os filisteus, pescadores de Deus

Comi dos peixes, mordi a carne,
sentei-me junto ao povo meu,
que entoou cantigas de ninar
antigas, odes e elegias
de um grego Tirteu

O povo hebreu, ao saber em terra
sua, o povo do mar, sem permissão,
esbravejou, chamou à guerra
e lá fui eu, centurião,
lutar pelo povo
que me esqueceu

Ao chão jogada, abandonada,
sofri a fome e a ansiedade
de um lugar que ainda fosse meu:
Jardim de Alah, Saara, museu
nacional de múmias, alguns
pedaços de quem já viveu

Sonhei mil e uma noites,
cem anos de solidão;
até que um dos sonhos
me disse: “tornei-me afastado
do mundo”, e eras tu, Anjo Umabel
de asa e arpão

Disseras também que houvesse,
onde havia tripas, coração;
e que em oração me ouvisse e desse,
como quem esquece, a mim a chance
de juntar-me à legião

Espartanos, romanos, ciganos,
mulheres e homens profanos
procurei entre eles ano após ano.
Apenas enganos; e estilhaçados
então os sonhados planos,
joguei o baralho
e saiu o
sexagésimo primeiro arcano

Solidão.

Compus um samba, uma modinha
e um tango chamado “Soledad”,
enquanto via nas ruas a vida:
das meninas de rua
das mulheres de rua
de uma hermana muy hermosa
que se llama Libertad

Viajei a América, latina
e tão ladina! tentando encontrar
menina, Nossa Senhora, mas
encontrei, em vez dela, santa Teresa andina.
Falou-me, a primeira flor de santidade,
que encontraria a verdade onde
houvesse a vontade 
de viver completamente

Solidão.

Tirei dos ouvidos a cera;
do corpo, a armadura.
Com olhos fechados busquei
a aventura de achar-te aqui comigo,
Teresa descalça dos Andes, Teresa das Balas,
Nossa Senhora Aparecida,
Mulher Guerreira Esquecida,
Anjo Umabel

No escuro da minha prece
uma imagem desaparece.
Não sei mais do passado,
das viagens, nem dos pesados
fados.
Nasço aqui e agora,
senhora de mim, dos sessenta e
um mares
e dos sete pecados.

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