Escrevo nua, com remelas nos olhos, cabelo despenteado e boca com hálito da madrugada. Uma amiga, certa vez, enquanto escrevia no computador uma peça adaptada do livro "A bolsa amarela", me explicou por que colara um pedaço de fita crepe sobre a webcam: dizem que a câmera está sempre ligada, e as imagens captadas vão parar em algum banco de dados ultrassecreto, subsidiado por empresas poderosíssimas interessadas em penetrar inclusive na nossa insônia e nas nossas expressões faciais de cego (quando acreditamos que não nos veem, permitimos caretas inimagináveis). Claro que ela, a amiga da bolsa amarela, não disse nada a partir de "e as imagens...", mas tomei a liberdade de meter alguns cacos para realçar toda a teoria da conspiração. Pois bem. Nem me lembro mais do que estava dizendo. Ah, sim: estou nua. É possível que este corpo obsceno esteja sendo transformado em imagem no exato momento em que escrevo; no entanto, faço-me de cega e continuo. Até porque certas coisas da minha nudez são impenetráveis, e por mais que sejam conhecidos, quantificados e estudados os meus hábitos e os de milhões de pessoas, a animalidade misteriosa permanece nesses corpos. Acredito ainda, e assumo o risco de incorrer no erro da teimosia, que exista o incontrolável, o não quantificável, o impensável, o imprevisível. Existem, meus caros funcionários das empresas voyeuristas, o voo do mosquito e o balé. E o sagrado persiste, embora esteja soterrado por essas centenas de camadas de razões - científicas, financeiras, religiosas. Os homens do outro lado não saberão o que sinto ao escrever, nem saberão se falo com Jesus Cristo ou com Lady Jane. No asfalto incessante das cidades onde vivo, procuro os buracos; e, curiosa como um avestruz desengonçado, afundo a cabeça um pescoção abaixo, recuperando o alento e o tempo. Mas não digo dessa aventura o que vi, que avestruz não fala a língua dos homens.
Tive um sonho estranho. Uma mulher dizia que minha sexualidade era ruim. Não entendi nem quero entender. Só acho estranho.
Comentários
Postar um comentário