Ia escrever um conto. Ficaria de frente pro janelão
da sala com o computador ligado. Era um desafio. Escrever um conto no tempo da
espera do homem no ponto de ônibus. Seria assim: enquanto ele estivesse ali, eu
escreveria. E no momento exato em que o ônibus passasse, levando-o para o
diabo, eu interromperia o tec-tec, tec-tec. Um conto no tempo não do escritor,
mas do desconhecido solitário que espera. Decidi escrever porque não queria
morrer. Pesei nesta balança: a morte seis andares abaixo ou algumas palavras?
Embora a morte seja mui tentadora, tenha seus encantos eróticos e tudo mais,
pareceu mais interessante escrever. Porque escrever, por mais que tenha um leve
gosto de sombra e de lágrima, é coisa da vida, não da morte. Que o diga
Machado! Ao olhar para baixo vi meu futuro póstumo: meu corpo morto numa
camisola azul bonitinha. Percebi que era muito jovem para morrer. Então o corpo
defunto desapareceu, como efeito especial da esperança - aquela danada! Olhei
adiante e vi um homenzinho parado com sacolas penduradas nas mãos. Estava
cansado e coitado. Dia de cão. Não poderia morrer de camisola azul. Não poderia
porque seria uma desonra ao homem no ponto de ônibus. Mas meus pensamentos já
tinham feito a canalhice de imaginar a cena grotesca do meu corpo morto no
canteirinho bem cuidado do prédio. Era preciso, decidi, reparar o erro de forma
vigorosa, para não deixar vestígios de sangue e camisola azul. A solução, muito
simples (vocês conhecem a felicidade das soluções simples), foi inventar um
jogo, uma aposta, um desafio. Escreveria no tempo da espera do homem. É noite,
e o transporte público deixa muito a desejar e a esperar. Se o coitado
estivesse esperando o 455, então... que esperasse sentado, debaixo da árvore,
debaixo do sono. Eu não podia adivinhar o tempo/tamanho do texto (minha maior
alegria!). Assim como não posso adivinhar o tempo/tamanho da minha vida. É
coisa que pertence a outro domínio, a outro inventor. O que posso fazer, e
receio não ter saída, é viver. Viver, e estou vivendo. Escreveria um conto. Não
sabia exatamente o que estaria nele. Talvez a história do homem antes de chegar
ao ponto. Ou a história do homem depois do ponto final. Não sabia. Escreveria
sobre ele, sobre suas angústias, porque já estava bem cansada das minhas. Ele
estaria, nesse conto, talvez esperando o 455. Desceria no último ponto da
Barata Ribeiro. Atravessaria os sinais fechados até encontrar o horizonte
noturno: a praia, a areia da praia, o mar e o nada. Haveria gente lá, uns e
outros casais apaixonados esquecidos pela areia, uns e outros banhistas
enlouquecidos. Ele, pés descalços, arrastaria seu peso ao mar escuro e, com uma
reza baixinha, jogaria na água as sacolas pesadas. Pronto. Poderia pegar outro
ônibus, talvez o 432, para a casa mal-assombrada no Catumbi. Poderia ser
assim o conto, se o tempo da espera deixasse. Não deixou. Peguei o computador,
liguei o computador. Sentei de frente para a janela. Um ônibus passou. Era o
217, pra Carioca. O homem desapareceu. Teria escrito um conto sobre ele se o
acaso tivesse deixado. Diante da negativa, no entanto, sorri. Porque o acaso,
eu percebi, estava apenas me dando um bom final para o conto que escreveria.
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