O desejo do mosquito

Estava deitada, e era uma tarde antiga de três dias atrás. Horário de verão no Rio de Janeiro. O calor impudico; as horas suadas que escorriam lentamente. O sono chegava, comportando-se como animal traiçoeiro (o diabo que nos vem falar na madrugada). Perdia a razão e o corpo, derretendo-me sob o fogo do topo da minha cabeça. A abertura aos astros e aos mosquitos. Zumbido, no meu quase não-ouvido. Era pouca a diferença entre o real e o sonho, mas bastam-me os reflexos do corpo para espantar o mosquito, seja ele em carne e sangue e asas, seja ele em frequências sonoras da imaginação vespertina. O mosquito zumbia sem cessar, como um louco, como um amaldiçoado. Ali percebi a perversidade divina: o mosquito não consegue ficar em silêncio. Assim o descubro, e o espanto, e o mato com uma palmada certeira no ar. Pobre mosquito. Sua existência irrequieta o denuncia. No entanto, o diabo também é perverso e confunde sono e vigília. O mosquito que matei qual foi? Levanto num sobressalto (as questões que nos assombram) e procuro-o no quarto derretido. Esquadrinho com meus olhos imbecis as paredes e os cantos. Busco o mosquito pelos raios de sol que incidem pela janela torta. Nas partes escuras não posso ver. O mosquito está em algum lugar, espreitando, esperando que eu desça minhas pernas ao chão escaldante. E ali ele pousará e me morderá. Vem então uma agonia - a constatação repentina de ser o objeto de desejo do mosquito. 

Não há neste universo nada que ele queira mais do que as minhas pernas. E os meus braços. E os meus pés. E a minha bunda. Diante dos olhos do mosquito, resplandece todo o meu corpo. 

ERRATA: o mosquito macho zumbe no meu ouvido, causando o tapa à mão. Ele morre de uma palmada; mas o mosquito (a fêmea) que me deseja satisfaz-se num gemido. 

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