Os sentimentos ruins fazem mal à saúde. Falo por experiência, por estômago cheio de ácido, por coração doído, cabeça latejando, lágrima escorrendo na janela do ônibus frio. Faz mal e os outros sabem. Um rapaz, ao me ver chorando, no canto, no lamento triste, decidiu não sentar ao meu lado. Sentou no banco de trás. Melhor pra ele. As pessoas não querem ficar perto da tristeza, ainda bem. É sensato. Eu é que sou insensata, como tantas, como tantos, sofrendo pelo que não existe. Achando que, mulher que me descobri ontem, nunca seria amada como tal. Amada, desejada, ansiada. Fiquei inventando que perdia o jogo, mais uma vez. Que alguém mais interessante aparecia e eu, mulher menor, poeta menor, ficava pra escanteio. Coisa engraçada essa de ficar inventando choros, abandonos. Ou nem tão engraçada assim. Meio feio isso, na verdade. Em vez de tentar olhar as coisas como elas são... De buscar a felicidade... De abrir o coração pra Deus e o mundo... E a fulana, imaginária, inventada, muito mais bonita, muito mais interessante, de peito aberto, sorriso no rosto. Toda viva. E eu aqui, morrendo aos poucos, querendo. O jogo nem começou e já está perdido. Por que sempre estou fora de campo? Por que sempre acho que a partida é para outros, jogadores? Nenhum lugar, nenhum argumento, nenhum talento. Nada é meu. Tirando essa dor de cabeça, esse mal-estar mal-me-quer. Tenho que cuidar disso, cuidar da minha saúde, dos meus órgãos vitais. Cuidar da minha vida, que vale muito, que vale como a de todo mundo. É preciso cuidar de mim. Comer, beber água. Fazer carinho, em vez de machucar. E acreditar que, sim, sou uma mulher com toda a dignidade que uma mulher tem, com toda a capacidade de ser amada. Ser amada. Como desejo ser amada! Já amei tanto não sendo amada! Já desejei tanto sem ser desejada! Quero completar os versos da vida com Bandeira, que amei não sendo amada e sendo amada, amei.
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