Quebrei a pipa dos meninos

Pipa, pipa, pipa. 
Eram três. Distintas entre si. Uma transparente, outra toda coloridinha. 
A terceira,  figura de um animal que já esqueci - essa memória!
Limpava o quarto, dia de pequena faxina. 
Em cima do guarda-roupa, poeira. Tanta poeira que poderia espirrar e espalhar a poeira e jogar a poeira pro mundo. 
O mundo que ficou guardado durante aquele tempo de acúmulo. 
Não espirrei. Juntei a poeira nas mãos, joguei num saquinho de supermercado. Aquela coisa de arrumação. Papéis ignorados pelas traças, planetas de isopor e tinta vagabunda, caixas de papelão duro... E as pipas, pobres pipas, rasgadas no meio, no canto, quebradas, amarrotadas. Esquecidas. Enfim, aquela coisa de quarto que não é mais de criança. 
Trouxe as pipas para baixo. 
E de pensar que fiz uma pipa subir um dia... Só um dia.
Aquele dia no Aterro do Flamengo, céu alto, sol claro, eu menina. Aquela foi a única vez que soltei pipa. Nunca esqueci a sensação. Segurar a linha fina, quase invisível. 

A linha que me ligava à pipa lá no alto, às coisas distantes, cheias de um mistério.  

A linha que me ligava ao vento, à sensação de ser o vento. Poder voar. 

Soltar.

Soltar pipa.

Esqueci. 
Três pipas no chão. Gastas pelo tempo, tristes pelo desuso. Presas, sem minhas mãos de menina. Para fazê-las caberem no saco de lixo, tive de contorcê-las até que a armação se quebrasse. Como doeu! Destruir uma coisa assim, tão frágil. Destruir uma coisa feita por mãos de criança. Senti que eu era um monstro. 
Mas passou. Um pouco. Agora penso menos drama. E reconheço:

Nessas mãos, então, ficam a farpa e o voo.

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