Uma pequena tristeza no sangue que sai pouco, a pouco, a pouco. Do meu fruto não concebido. Sou uma mulher e menstruo. A vida pingando, mesmo que o anúncio seja de nulas reverberações de mim. Sou uma mulher e também não a sou. O corpo sangrando abaixo, as imagens do mundo sangrando. E reaprendo quando não concebo. A carne é também linguagem e imaginação. A mulher que sou e a que não sou, a que volto a ser e a que jamais reencontro. Fico no meio de tantas, sem nenhuma, com todas. É o sangue, é o sangue! Embora já esteja seco na minha calcinha. E é o ser descalço e nu que arrebenta desses carnavais de palavras. Ponho a mulher a dormir e a sonhar, como a criança que sou. Conto para ela as histórias do meu ventre encarnado, das minhas andanças pelas ondas serenas e agitadas, inconstantes, da matéria imputrescível. Ela cochila rápido nos meus braços, mama os líquidos, seivas, os vinhos dos meus mil seios. Aperta-os com suas mil bocas. Minha filha, meu lúcido delírio. Minha criação feroz, impiedosa, inútil. Que é eterna (e já se foi).
Eu liguei os astros aos vermes sem a menor ideia.
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