A pomba contemplativa

Paradinha na calçada alta de velhas pedras portuguesas. A calçada limpa. O milho das velhinhas e as porcarias dos outros estavam abandonados em outras calçadas, onde uma multidão esbaforida de pombos disputava a melhor bocada. O que aquela pomba magricela estava fazendo ali, paradinha, longe de seus semelhantes, com a barriga vazia no início da tarde? Estaria esperando alguém, talvez um pombinho que atrasa pra fazer charme? Ou um velho compadre pombo que traria novidades de dez quarteirões acima? Nós seres mulheres e homens adoramos humanizar os bichos, as árvores, as pedras. Claro, só conhecemos o mundo como seres humanos: não como bichos outros, árvores ou pedras. Mas eu tenho quase certeza de que tinha alguma coisa ali com aquela pomba. Eu parei na calçada alta de velhas, velhíssimas, pedras portuguesas. Fiquei olhando a pomba. Ela, concentrada do jeito que estava, dedicou a mim só uma rápida e desinteressada viradinha de cabeça (aquela típica dos pombos, conhecem?) e logo voltou para sua - vou arriscar - contemplação. Eu, desde muito pequena, tenho pavor (pavor!) dos pombos. Já tive pesadelo, já paguei micos e king kongs. Muitos não entendem quando, em certos lugares, eu levanto de uma cadeira confortável e fico de pé. Não é para melhorar a circulação, esclareço. É por causa deles. Dos pombos. Shhhhh: não contem pra ninguém, por favor (brincadeira, podem contar. Todo mundo já sabe). Então, por temê-los, sempre prestei atenção neles. Ontem não foi diferente. Aquele exemplar da espécie, na calçada, da calçada, estava vendo alguma coisa. Alguma coisa importante. Alguma coisa muito importante. Talvez pela primeira vez. Não vou dizer que a pomba estava consciente de alguma coisa. Não vou dizer porque não posso. Não sei. Mas imaginei (e a imaginação permite tudo, não esqueçam) que ela estivesse pela primeira vez vendo o mundo com alguma atenção. Sem se importar com a fome ou com o pombinho atrasado. O que importava para a pomba tampouco era eu, curiosa olhando para ela. Havia alguma coisa ali. O novo na vida da pomba. O novo do mundo. A primeira explosão, o primeiro som, a primeira visão. Nascer no mundo. Nascer o mundo. Muito importante. Certamente ela não foi a primeira pomba nem o primeiro bicho não-homem que teve esse momento. Deve acontecer o tempo inteiro. Uma consciência repentina e fugaz? Que não perdura porque esses animais, plantas, fungos, bactérias, protozoários e pedras não têm a mesma capacidade (ou necessidade) de comunicação que nós temos? Pensem comigo, me ajudem. E amigas e amigos, mulheres e homens, prestem atenção nos pombos. 

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