Minha felicidade é inútil. E eu não existo. Apenas sei, cogito, penso. Vejo. De joelhos em uma igreja não rezo, pois não creio. Não creio nos meus joelhos. Nem na voz que não fala. Esqueci de falar, de existir. Esqueci de como me chamam. Esqueci de amarrar os sapatos, esqueci do guarda-chuva, do dinheiro, da tarefa... Esqueci de tudo porque estou feliz. Depois de tanto tempo, sinto a felicidade. E não sinto nada. O mundo com suas tragédias e eu com minha felicidade. Não quero fazer nada pelos outros, não quero mudar o mundo. Não quero que me reconheçam, nem que me chamem. Eu me esqueci. Esqueçam-me também! Quero ficar esquecida na felicidade. Quero passar a vida contemplando as pequenas belezas. Quero sair por aí cada vez menos visível, cada vez menos sonora. Quero conservar minha felicidade inútil. Como será bom! Até que a culpa acelere o tempo da felicidade e me arraste com ela para o purgatório. Alguém me colocará de joelhos e me obrigará a pedir perdão. Perdoem-me, perdoem-me o egoísmo! Perdoem-me a felicidade. A felicidade solitária e vazia. A felicidade de não estar com o outro. A felicidade de ser feliz sozinha. A dúvida que tenho é: de joelhos, pedindo perdão, serei sincera? Ou terei a exata perfídia para permanecer intacta no vazio, plena no sorriso? Estou tão leve! Como não fui nos últimos anos. Quero permanecer assim. É impossível suportar tanto sofrimento. Escrevo agora com tinta nova, que não é sangue. Nem lágrima. É guache. Colorida e atóxica.
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