Arthur era um enfant terrible, um anjo perturbado que, com caretas zombeteiras, causava arrepios gelados nas espinhas retas dos homens. Arthur tocava o terror por onde passava, fera incorrigível e desleal, um pequeno demônio de traços delicados e postura desafiadora. Menino, era o Arthur. Tinha uma mãe que não o compreendia, tinha uma mãe dentro de si, também. Arthur era um menino-homem-mulher intenso como a brasa nova e surdo porque precisava gritar o tempo todo. Não tinha jeito. Seu destino era abrir o berreiro, cuspir nas vestes limpas dos moralismos, morder, sustentar a faca contra os covardes. Precisava rugir, não tinha jeito. Desnudar-se na janela e apontar-se para as ruas cheias de pudor; ferir o fotógrafo que rasgaria todos os retratos que fizera do poeta menino; fugir de casa e sair pelo mundo sem um tostão furado. Era necessário. Arthur leu todos os livros da biblioteca de seu professor e escreveu sobre poesia com a autoridade de um grande poeta. Achincalhou grandes da literatura (uns velhos!) e quebrou a pedra que impedia a poesia de seu caminho mais tortuoso. Ele quis o caminho tortuoso! Afinal, a poesia só pode existir assim. Arthur reconheceu e abraçou como uma mãe carinhosa seu sofrimento tremeluzente. Assumiu sua dor terrível e seu desajuste. Era imprescindível, para se afirmar plenamente, xingar todo o mundo. São todos uns covardes, uns burgueses que acham que fazem poesia! Arthur odiava verdadeiramente esses homens, porém. Odiava-os porque eles não o compreendiam, porque faziam parte de um modo estabelecido de escrever e de se envolver com as pessoas e com o mundo. Mas a poesia, e Arthur sabia muito bem, está morta quando não enfrenta a forte turbulência da linguagem em descobrimento. Não é estranho então que ele tenha escrito poemas tão arrasadores, fulminantes e belos nos anos primevos de sua existência. Arthur era uma força espantosa de vida que precisava se tornar poesia. Algo em suas entranhas, debaixo de seu estômago, nos seus olhos azuis perturbadores, necessitava ardentemente de ser linguagem. O símbolo. Por isso ele leu todos aqueles livros, por isso se jogou às ruas com tanto desespero. Ele precisava do símbolo, da transmutação das pedras da rua em símbolo. Era urgente a aquisição de palavras para dizer o que, como um demônio, sussurrava em suas vísceras. Assim, a raiva que sentia daqueles homens que liam por erudição, que escreviam sob prescrições e vontade de ser elogiado, não era apenas rebeldia de um rapazote. Como pode alguém que não sofre pretender ser poeta? A poesia é sempre feita com sofrimento. Porque é nova. E o novo aturde porque não se sabe a forma com que revelá-lo. Arthur era novo, o mundo era novo. Era preciso, portanto, inventar a linguagem desse mundo novo. Para isso não bastava estudar as formas antigas, não bastava conhecer o passado. Era preciso ser vidente! E ele foi. Arthur, o profeta, inventou que a poesia, a verdadeira poesia, só será alcançada quando a mulher tiver vez. Arthur era feminino, quando escrevia, quando quebrava as regras. Sabia, portanto, que a poesia- o novo, a destruição, a reviravolta- virá das mulheres, e, com as mulheres, os homens mudarão, o mundo mudará! A poesia, ele descobriu, é vocação das mulheres. Porque também é vocação das mulheres a revolução. A mudança. O novo. Elas lutarão pela transformação de um estado de coisas. Contra um mundo que não permite que elas sejam poetas, que as proíbe de estudar certos assuntos, que controla seus corpos, seus sorrisos. Século XIX. No século XXI, sou mulher. Não sorrio quando quero, às vezes. Tenho medo de andar sozinha por certos lugares. Não celebro meu corpo tanto quanto deveria. Por isso, é um dever ser revolucionária. Ser poeta.
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