Às duas e cinquenta e sete da madrugada, a menina Bruna apanhou uma ratazana com suas pequenas mãos endurecidas. Como já possuía algum traquejo manual, conquistado a duras madrugadas de trabalho, conseguiu prender o bicho sem dificuldades. Virou o corpinho cinzento para ver a barriga. Estava de bucho cheio, a ratazana. Olhou nos olhinhos da pobre criaturinha e viu que estava apavorada. Engraçado que diziam que as ratazanas sabiam se defender muito bem com os dentes. Bruna não teve medo de uma mordida. A ratazana parecia conformada e deixava-se examinar apesar do medo. A menininha de doze anos, baixinha e ossuda, já tinha sido assim, medrosa. Quando a mãe foi chamada por uma amiga para vender bebidas alcoólicas nas festas do Arco do Telles, decidiu levar também as duas filhas. Assim seria bom. As meninas ficariam longe do pai violento e ainda aprenderiam o ofício da mãe. Desse jeito, saberiam se virar, não passariam fome. Bruna, que naquele tempo tinha sete anos, morria de pavor das ratazanas do lugar. A primeira vez em que viu uma foi quando Gabi, sua irmã mais velha, propôs um jogo de pique-esconde. Bruna se meteu num vãozinho com fedor de xixi e ficou esperando. De repente, saiu do buraco um rato horroroso, marrom, peludo. Ela nunca tinha visto um daqueles. Deu um berro, assustou um grupo de jovens bêbados, arruinou o esconderijo, perdeu a brincadeira. Gabi bateu: um, dois, três, Bruna. O rato correu alucinado, se meteu noutro buraco, sumiu como um fantasma. Dulcineia, a mãe das meninas, gritou-lhes uma bronca, não é pra vocês brincar, é pra ajudar no trabalho, suas pestes. Depois, nas festas seguintes, viu outros ratos horrendos. Gabi contou que eram ratazanas, ratos maiores e mais feios, que mordiam com força e faziam sangrar. Mas Bruna percebeu que as ratazanas não faziam nada além de correr de um lado pro outro. Uma vez, a amiga da mãe contou que naqueles sobrados do Arco do Telles apareciam fantasmas de todas as épocas. Disse que uma tal Bárbara dos Prazeres, bruxa que fazia poções da juventude com o sangue de crianças, ainda assombrava o lugar. E se ela quisesse o sangue de Bruna? E se os ratos fossem também fantasmas? Bruna cresceu e perdeu o medo. Bárbara dos Prazeres agora não passava de uma história divertida e as ratazanas não passavam de ratazanas. Aos doze anos, às duas e cinquenta e sete da madrugada, Bruna apanhou uma ratazana para tirar a prova definitiva de que os ratos eram ratos, não fantasmas. Apalpou com vontade, examinou o animalzinho com curiosidade. Uma moça que passava percebeu a ratazana nas mãos de Bruna e gritou. Assustada, Bruna largou o bicho e viu quando ele se enfiou num buraco apertado. Que nojo, que nojo, disseram uns jovens chapados. Bruna se sentiu estranha. Entrou no banheirinho sujo de uma boate fantasma, esfregou as mãos na água corrente e voltou ao trabalho. Cerveja? Ninguém respondeu.
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