O escritor
sem inspiração. A rua vazia, madrugada profunda; não há ruído, afora a
ronqueira de um ou outro homem de rua. Ignácio era escritor.
Há trinta e
três anos, encheu um caderno com dez contos fabulosos- pelo menos assim acreditava.
Estava lá com vinte e um anos. O bigode na cara, uma fraude audaz. Confiante em
sua escrita, procurou alguns editores da cidade onde morava. Rejeitado por meia
dúzia, continuou, com obstinação e pasta com os originais à mão.
Quando o
bigode perdera já o viço, o cabelo engomado estava mais para engrolado e os
joelhos doíam, enfim, quando o drama necessário já estava montado, Ignácio foi
acolhido gentilmente por um jovem editor em seu escritório meio desarranjado.
Conversaram um par de horas, entre goles de vinho e comentários muito
elogiosos.
O editor, Lupicínio
Limeira, tinha trinta e poucos anos. Simpático, alto, bigode farto e bem
cuidado, dentes bonitos e cabelos por cair. Era solteirão, não tinha paciência
"pra esse negócio de uma mulher só". Herdara de seu tio, outro
solteirão orgulhoso, a pequena editora, que era agora a sua paixão. Contou a
Ignácio do desejo juvenil de ser escritor. Adorava Machado, Balzac, Gogol, mas
seu favorito mesmo era Victor Hugo. Aos quinze anos, decidiu que seria como
ele, escreveria como ele. Tentou, fez alguns plágios, releu seus títulos
prediletos; passaram-se seis anos. Desistiu. Decepcionado com a falta de
talento, largou de vez a escrita e passou a dedicar-se exclusivamente à
editora. Depois de um tempo, a frustração amainou, e veio a paixão pela edição
de livros. Agora, ele disse, um jovem e talentoso escritor aparecia diante
dele, fazendo-o rememorar as ilusões de sua juventude. Ignácio e Lupicínio,
depois de horas de leitura, fabulações e planos, cumprimentaram-se
fervorosamente e fecharam o compromisso: o livro de contos fabulosos seria
editado. Ali começava a carreira de Ignácio e a longa amizade entre os dois.
Foi há trinta
e três anos. Lupicínio já não está entre os vivos e Ignácio é o escritor sem
inspiração. A madrugada afundou. A ronqueira cessou. Cadê o ruído, cadê o
motivo? Ignácio era escritor de mão cheia, imaginação fecunda, vontade de leão.
Cadê o motivo? Dentro de casa não pode estar. Ele procurou por toda parte, no
armário de remédios inclusive. O motivo está lá fora, uma certeza repentina.
E assim
saiu. De pijama, de bigode grisalho, de óculos na cara. As chinelas não são ideais
para uma caminhada, mas... Ignácio subiu a ladeira de paralelepípedos com
dificuldade. Os santos não ajudam. A noite das quatro da manhã é azul como o
laçarote de Liz, seu primeiro amor. Azul como a capa de "Contos
Fabulosos". Azul como... Como a madrugada mesmo! Já estava impaciente. Não
via nada que pudesse transformar em conto. "O laçarote de Liz" já era um, incluído no livro "Filigrana".
No alto da ladeira, a Igreja de Nossa Senhora da Anunciação, branca e- de novo!-
azul.
Ignácio não
era de rezar; na verdade, duvidava da existência de Deus. Mas acreditava em
milagres. Milagre para
ele, no entanto, não significava um cego ver, ou uma virgem engravidar. A vida
era um milagre. Escrever era um milagre. O azul, esse insistente, era um
milagre. Esquecendo a dúvida agora, adentrou a igreja anunciada e foi ao altar.
Nossa Senhora estava pálida, talvez o frio naquela madrugada infernal...
invernal, perdão! Ignácio gostava de brincar com a Mãe. Estava séria, amuada, sem
paciência até. Deve ter sido a piada. Ignácio ajoelhou-se à Mãe de Deus,
abaixou a cabeça e rezou. Não que fosse de rezar, mas, como dizia o ditado...
Maria cheia de graça seria capaz devolver-lhe a inspiração? Seria capaz de ouvir
um herege, um galhofeiro?
Fez o sinal
da cruz, olhou para a santa e caminhou iluminado apenas por algumas velas pouco
generosas. Ao sair da igrejinha, ao dar com a luz pálida de um velho poste,
veio o castigo. Estava tudo embaçado. Estaria ficando cego? Com cuidado para
não tropeçar nos degraus que pouco conseguia divisar, desceu a caminho do largo
que conduzia à ladeira. Maria, certamente irada com as indecências daquele
escritor presunçoso, havia lançado o castigo. Sim, porque um escritor não
poderia escrever sem ver. Ele teria de abandonar seu ofício maior, sua arte,
sua mais preciosa função. Maria não era fácil! Deveria retornar e desculpar-se
com ela? Ela não aceitaria de imediato as desculpas; faria Ignácio pensar sobre
suas atitudes. Ele deveria sofrer um pouco, para aprender. Ah, as mulheres. Ah,
as mães. Voltaria depois. Mamãe estaria mais calma, mais benevolente.
Ignácio
soltou uma gargalhada. Nada de
cegueira, nada de castigo. Ele perdera os óculos! Certamente eles caíram quando
inclinou a cabeça em sua reza de escritor. Pronto, agora voltaria à igreja com
verdadeira razão. Chegando ao altar, inclinou-se de novo à procura dos óculos. Maria
era ardilosa. Como conseguiria achar os óculos sem os óculos? Não dava jeito.
Voltaria depois, descansado e com a ajuda de algum sacristão caridoso os
acharia. Cruzou novamente o corredor da igreja e saiu. Os degraus. Desceu cauteloso
e seguiu para a ladeira.
Para descer
todo santo ajuda, a não ser que se esteja sem os óculos. Ardilosa! As chinelas
prendendo entre as pedras, estava ridículo. De pijama, de chinela, sem os
óculos, tentando achar inspiração. A chinela prendeu de novo entre os
paralelepípedos e, dessa vez (todo santo ajuda!), seu corpo projetou-se para
frente e caiu.
Ladeira
abaixo, o pobre escritor sem inspiração, sem óculos e sem chinelas foi parar em
frente à sua casa. Combalido, sem forças para levantar-se, ficou estatelado por
minutos.
Quando
finalmente encontrou a decência para reerguer-se, apoiando a bunda no chão, viu
uma luz. Eram quatro e meia da manhã. Ainda não era o sol. A luz vinha do chão
de pedregulhos. Vinha do chão! Cintilava firme, imponente. A luz do escritor.
Sim, a inspiração. Ignácio soube do que escrever. Aquela luz, Nossa Senhora da
Anunciação, a mãe. Milagre. A vida é um milagre. A escrita é um milagre. A luz
é um milagre. Os óculos são um milagre.
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