Todos pensam que são inimigos, que não se bicam nem em alma de pombo. Todos pensam que moram em lugares muito distantes, que não tem nem ônibus, nem metrô, nem nuvem voadora de um canto a outro. Que o céu e o inferno não se comunicam. Mas eu, que não revelo meu nome nem a pau, conheço os dois- e os dois, muito queridos, são amicíssimos. Encontram-se no futebol, xingam ("Vai pro diabo, coisa ruim!") quando estão em times diferentes, comemoram juntos no mesmo time, e, sobre uma jogada mal executada, "Deus me livre!". Eram pura farra nesses domingos de descanso. Nos outros dias entretanto, seis, que Deus às vezes é meio cruel, a vida pros dois era dura. Como pra quase todo mundo. O diabo todo endividado, colocavam na conta dele todos os males do mundo. E o coitado nem podia reclamar. Fazer o quê? Da última vez em que reclamou, ainda anjo dos mais altos, virou o quê...? O diabo! Jesus Cristo tendo que ouvir as maiores blasfêmias, tendo que ver o que fizeram com suas palavras. E nem podia botar a culpa toda na imprensa. Ela nem existia quando começaram a espalhar aqueles disparates. Era duro ver tanta vontade de sofrer, de fazer o outro sofrer para sofrer, de sofrer para fazer o outro sofrer para sofrer. Muita sofrência. E nem podia culpar os cantores sertanejos. Eles nem existiam... Todo mundo sentindo culpa, se autoflagelando. Peso horrível. Acharam que a cruz era isso! O diabo e Jesusinho- assim o chamava o compadre- reuniam-se semanalmente para falar à vontade dos problemas que enfrentavam. Era bom ter alguém com quem compartilhar os sentimentos mais íntimos. Hoje, sexta-feira - santa não é, mas é a santa sexta-feira!-, cansados do trabalho, batem papo num bar na Matoso.
Na mesa do bar, tomando sua cerveja amarga, Jesus desabafa: "Meu amigo, às vezes penso em desistir, sabe? Minha palavra, que não é Minha Palavra, assim com maiúsculas, minha palavrinha simples, ninguém entende. Achei que tivesse sido claro. Pô, fiz até água virar vinho!". E o diabo: "Te compreendo, companheiro, te compreendo. Somos os incompreendidos, quatrocentos golpes, desculpe a brincadeira. Colocam a culpa de tudo em mim. Tudo o que é ruim é do diabo. Estou comendo o pão que o diabo amassou, desculpe a brincadeira. E nem pense em multiplicar esse pão. Ruim demais". Já estavam às horas falidas, embriagados, e o bar quase fechado. Só não por completo porque um dos compadres tinha ainda algum prestígio. Assim prosseguiam: "Ah, parafraseando Vinícius, meu coração não pode mais viver assim dilacerado. Dói muito, meu velho. Se representassem com fidelidade meu coração, não seria tão bonito como nos retratos, todo glorioso. Vivemos tempos nada gloriosos". O diabo: "Vivemos, caríssimo. Sempre vivemos, na verdade. Nunca foi fácil. Mas estamos aqui, firmes e fortes. Espero que essa rapaziada aprenda e seja feliz, que isso é o que importa". E Jesus, pensativo: "Verdade... Sempre foi difícil. Às vezes, aqui com meus botões, sabe que não tenho botões, mas é isso, acho que são meio burros. Claro que penso isso só às vezes. Às vezes acho que só, sei lá, são meio distraídos. Ou prestam atenção nas coisas erradas." O diabo, depois de ouvir com muita atenção: "Pode ser. Mas a gente vai tentando. Eu vou tentando." Jesus soltou uma gargalhada meio torta: "E eles não caem". O diabo concordou e disse, pra terminar: "Ora, meu velho, mas eu caio. E você também. Acho que vamos ter que ir nos apoiando pelo caminho". Jesus olhou com carinho o seu velho camarada e completou: "Sempre assim, né?". Sempre assim, né?
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