Os pesares amargurando nos poros, triste. Entendo que, no entanto, é necessária uma dose de veneno para que o corpo se levante e acione os anti-corpos. A amargura é certamente um corpo estranho. Não estava aqui antes, não faz parte de mim como fazem meus braços e minhas pernas e todo o resto que me é vital- ou pelo menos deixa a vida mais aproveitável. O corpo em levante é a coisa mais poderosa que existe. Alguém já viu? Um homem combalido, depois convalescente, e chega a hora da próxima batalha. Que belo guerreiro! Venceu o estado inercial, foi adiante. Caminho natural das coisas. Mas existem os que ficam pelo caminho. Não, não as formigas. A folhona está pesada demais, as chuvas começarão, depressa, formigas! Depressa! Nenhuma jamais fica pelo caminho. Por favor, me conte a história de uma formiga que desistiu. Não existe, não existe, creia em mim. Agora, homens que desistiram... A vida para esses putos precisa fazer sentido. Se não fizer, ora, não vale ser vivida. Acontece alguma coisa, um insucesso, uma surpresa mal-vinda: pronto. Já está detonada a bomba. A explosão se traduz em pensamentos negativos, medo, ressentimento, amargura. Vamos refazer essa metáfora, acho melhor: os pensamentos negativos, o medo, o ressentimento, a amargura compõem a massa crítica da nossa bomba renovada. Acontece alguma coisa, um insucesso, uma surpresa mal-vinda. Explode. E o que vem? Estou chorando. O texto acabaria aqui. Ficaria até bacaninha. E meio triste... Não, não quero que me vejam como uma menina chorona. Choro sim, de vez em quando, que ninguém é de ferro- e, se fosse, estaria enferrujado-, mas quero passar do simples choro. Quero ser como aquele guerreiro resplandecente! Quero vencer a escuridão, o medo; acreditar de novo em mim, no meu futuro, no que sonhei e ainda vou sonhar; quero andar sobre as minhas próprias pernas frágeis e pensar com clareza, sem essa nódoa no peito. Sem o desejo de sofrimento, sem auto-comiseração, que é bem mais fácil. Já até veio um sorriso, olha! Fácil, fácil...
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