Encarnação

O que fazem as mãos, tuas mãos pendentes, embaralhando a vista com este arco indecente? Estás sentado, abandonado, desleixado, e as pernas... entre as pernas abertas o que escondes? És tão impudico, esta pose jactanciosa, este nariz aprumado. Este nariz abstrato. Metafórico. Por onde andas, que já não te vejo? Tua imagem se desfaz em minhas mãos. Por onde andei com estas minhas mãos?! Tua lembrança faz de mim fera convulsa; ouço então subir do ventre um frêmito. Arrepios espasmódicos me procuram. Chegarei enfim a mim? Prossegue a atividade. Teus olhos firmes, dóceis, meus olhos  piscam: já não os vejo. Ficou um rútilo borrão, a visão persiste. Recordo então os teus cabelos, ondas escuras. Meus dedos, pura luxúria. Cabelos, cabelos, cabelos. Enredo-me, armadilha prazenteira, até chegar ao xis do meu tesouro. Minhas mãos em teu corpo. Minhas mãos na terra do meu corpo: gritos da fera enterrada, o fogo do Inferno, a água do Céu... E vejo ainda teu rosto! Então abres sorriso - coisa divina! -, e dele abre-se o meu.

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