Para Lalesca

Se a alma arrasta um peso de distância infinita e cede em rasgos profundos de pele, se sangra, então; se a boca engole a pena e dela o escarro rompe, se de amargor seu peito pulsa e sua tez envermelha, faça disso a tinta da sua luta material. É tempo de espargir na tela, de virar o traço ilegível e a prova irrefutável da vida. A melancolia estará sempre à porta, esperando a primeira desilusão. Os deuses e os musos morreram, o céu faz-se mais escuro; estamos quase desaparecendo. Mas a desaparecência não é de modo algum o fim do combate! Desaparecemos para reaparecermos então esplandecidas, gloriosas, cintilantes em alegria, entusiasmo e êxtase, finalmente. Existe em nós uma fera inquieta que às vezes ruge às vezes cala. Existe em nós um demônio maravilhoso, um ser que se esconde em trevas e que, quando lhe permitimos toda a luz, torna-se o deus mais radiante. O que, no entanto, é mais belo, por ser trágico, é que está em nossas mãos a decisão de deixar em trevas ou trazer à luz. Minha querida amiga, companheira de aflições e aleluias, somos artistas, aprendi isso. Temos na veia a agonia e nas mãos o rompante. Temos na cabeça o sangue e nos olhos a clareza. Nossa luta é nessa encruzilhada de luz e sombra, de vigor e convalescença. Somos artistas e devemos permanecer fiéis a nós mesmas, apesar de tudo (e você sabe que, nesse mundo, "tudo" é muita coisa!). Permanecer fiéis a nossas agonias e deslumbramentos, à nossa poesia e à nossa aquarela. 

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