Tenho no estômago um pedregulho e na veia um veneno suave. A vida pareceu grande demais, forte demais, insuportável demais. Enquanto na calçada o corpo avançava com propósitos obscuros, alguém conhecido abaixava a cabeça para evitar o cumprimento, a saudação. Nesse instante, o corpo desfez-se em mágoa, ficou apagado, até que desapareceu na rua tumultuada. Sem o corpo, mesmo assim, continuei caminhando, ainda que a agonia de estar sozinha e esquecida impedisse a lucidez total dos passos. Fui pelos corredores iluminados sem me dar conta da alegria e da juventude, das conversas bem gesticuladas e das cores da moda. O que os olhos desejavam, além de obscurecer o cenário, era a completa fusão com as palavras impressas de um livro. Desse jeito poderiam ser fugitivos sem culpa ou constrangimento. Entretanto, a hora da aula resolveu impor sua rigidez incontornável; assim obedeci e me apresentei à carteira de plástico azul, sentando nela, encolhendo nela, fugindo nela. As pessoas na sala me pareceram estranhas. Não conhecia mais ninguém. O peito oprimido pela regra gritava subterraneamente, nos porões insuspeitos das minhas aflições. Desejei com todo o fôlego- e toda a falta de ar- estar noutro espaço. Nada das paredes nem das palavras fazia sentido. Fugir: não pude. Esperei então que a hora me ajudasse, passasse e proclamasse o fim. O rosto se contorcia prevenindo o choro. Me senti um lixo, algo que não se integra, que não tem utilidade alguma, que não tem significado por si só. Sufocada desse jeito pelo ego, resolvi que, assim que terminasse a aula, eu fugiria. Sim, sem cuidado, negligente, muito egoísta e sozinha. A aula terminou. Pus o plano sórdido em ação. Menti pra um e outro colega, tenho um compromisso devo sair cedo, e saí. Saí daquele prédio antigo, manicômio de outros tempos, rumo à casa, alguns quilômetros de agonia. O ônibus chegou logo e estava vazio como eu. Observando da janela, os pensamentos, os pusilânimes pensamentos, animavam as forças de morte. Pensei num monte de coisa difícil, coisa dura e embrutecedora. Pensei em como fazem pro meu pai o olhar abaixado, em como excluem os diferentes, em como julgam covardemente. Pensei na minha própria covardia diante do mundo, na falta de energia pra participar, pra realizar, pra falar. Pensei no sorriso falso do colega no corredor, pensei num monte de coisa ruim. O ônibus, como eu, passou. Então cheguei no ponto em que deveria descer. As lágrimas ficaram marcadas, um pouquinho. Atravessei a rua e dei com um hidrante enfeitado com traços que imitavam um rosto caricatural. Ri, um pouquinho. Pensei no bom-humor, nas pessoas que ainda querem encantar, fazer sorrir. Um arroubo de vento me fez ver a grande alegria que o mundo é capaz de ser. Mas a tristeza ainda se fazia presente, ainda doía. Cheguei em casa. Minha irmã veio abrir a porta, eu sorri, disse que estava com dor de cabeça, precisava dormir. Assim fiz, depois do segundo almoço. As mães sempre se preocupam com a nossa alimentação. De barriga cheia, um pouco menos vazia, deitei, e o sono veio, como um ônibus em dias de melancolia. Sonhei. O menino que tinha os olhos baixos pra mim falou comigo alegremente. No sonho, tudo estava resolvido. Acreditei que tudo não tinha passado de um engano, as pessoas às vezes estão num dia ruim. Acordei. A igreja empurrava seus sinos das seis. Som mágico o de um sino. Ainda mais enquanto a ponte entre o sonho e a vida desperta não se conclui. Depois das badaladas, o quarto confuso ainda, tudo estava resolvido. Fui à janela, a da cozinha- meu pranto clarividente- e vi as crianças lá embaixo, voltando de um dia entediante na escola. Estavam livres agora. Os sentidos comuns se desfazem às seis da tarde. O tempo, por mais paradoxal que possa parecer, fica suspenso. E a ventania continuava a colaborar com a minha evanescência. De repente, aquele amor, de novo, da janela, tomou conta de mim. Senti amor por todas as pessoas, tudo o que estava ali, presente. Uma nuvem majestosamente negra obscurecia as atribulações do céu claro demais. O céu em negrume nebuloso é muito mais fácil de compreender. Desejei, então, que o meu corpo, restituído a mim desde o despertar dos sinos, estivesse sempre ali. Compreendi.
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