Certo dia, dia incerto, um amigo meu, durante uma tarde graciosa na praça, menos incerta do que o dia, fez uma pergunta para a qual eu já tinha resposta. Vinha pensando naquilo há um tempo, tempo incerto, durante as tardes graciosas em que me encontrava sozinha e distante da praça. Ele, meu amigo, perguntou (vou dizer assim direto, sem preparação, como ele fez): "o que você quer fazer da sua vida?" Claro que com as aspas, atribuindo a frase exata a ele, estou só criando uma maneira de construir o texto. Não foi assim que ele perguntou. De todo modo, a resposta já estava prontinha, ansiosa pela pergunta. Eu respondi: "o que eu quero fazer...? Uma coisa bonita!" Uma coisa bonita essa de colocar interrogação. Um charme, já que a resposta estava pronta. Uma coisa bonita era o que eu gostaria de fazer, de deixar para a Humanidade. Ou, sem essa pompa toda, para algumas pessoas. Poderia ser um, dois poemas. Três, a depender da minha inspiração e experiência. Ou, quem sabe a vida não surpreende, poderia ser um filme ou uma canção. Uma coisa bonita. Poderia ser um instante (é um conceito bem abrangente, esse "coisa bonita"), um olhar, um gesto, um canto mais ou menos desafinado, um pensamento. A resposta estava pronta. No entanto, como todas as respostas prontas, essa não teve outro remédio que não se desfazer. As certezas, para quem pensa demais, têm a vida brevíssima. Um relâmpago. Ou uma florzinha, sem essa pompa toda. Decidi que fazer uma coisa bonita era muito pretensioso. Muito gabola, pernóstico, pávulo, jactancioso... essas coisas todas. Depois de assistir a Edu, Chico e Tom fazendo beleza com "Choro Bandido", e depois de ouvir o Antônio exclamando, todo derretido, "Lindo!", entendi que o que realmente quero fazer é dizer, sempre e sempre e sempre, até o último dia, para as coisas mais banais e para as mais extraordinárias (e para as mais coisa nenhuma), "Lindo"!
Do seu amigo das tardes graciosas na praça:
ResponderExcluirAh, mas qual pode ser o motivo da existência, a não ser estético? Digo a você, minha cara, que será exatamente vendo a beleza no mais banal, no mais grotesco, no mais "coisa nenhuma", que você acabará por transformar sua potência em beleza ela própria, transcendendo esse parco conceito. Assim, nada seria mais natural que você produzisse também coisas belas, seja poemas, filmes, pensamentos. Me permito, então, ser pretensioso, dizendo que uma coisa não contraria a outra, mas que elas se complementam!