Um trecho de hipocrisia

Me veio à cabeça agora que sou hipócrita. Já falei de coragem, já tentei desafiar a autoridade, já martelei minha cabeça, e o sangue... o sangue onde está? Secou, foi limpo, lavado, jamais existiu? Talvez tenha usado um martelinho de brinquedo, daqueles coloridos que fazem barulho engraçado. Coragem, a vida reclama coragem, sei disso. Mas o que faço além de escrever textos egocêntricos que não interessam a ninguém? Deveria estar lá fora com meus jovens, fazendo barulho e discutindo política, cantando Chico ou sei lá o quê. Deveria estar pelas calçadas fazendo um som com violão, paquerando os garotos, tentando entender o mundo... de fora. De dentro, a chuva não molha, o cão não morde, a planta não cresce sem luz. Essas indignas insinuações literárias vão apodrecer. Vão apodrecendo. Conforme escrevo. Alguém me diz com frequência que o que faço é mais o que não faço: são desculpas esfarrapadas para não viver. Tudo é invenção: a luz, o corte, a seda, a tralha, o medo, a letra, o muso, a estrela, o som. À espera de uma vida prometida, tenho esses versos como auspiciosos. Serei livre um dia. Talvez semana que vem.

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