A poesia nasceu de mim
Nasceu dos meus submundos
Dos meus cantos imundos
Dos meus festivais melancólicos
Nasceu do Carnaval solitário
Do perfume ordinário
Das pétalas murchas de uma já não flor
A poesia nasceu do rancor e da angústia
Nasceu do ódio, da amargura
Travestiu-se em ternura, e eu até pareci
Feliz
A poesia sobreveio da dor
Da incapacidade de agir, de crer, de tornar
A vida coisa grandiosa
A poesia surgiu da corda bamba
Da criatura asmática
Do fígado bêbedo
Do semblante apático
Nasceu da hora e do espaço
Nasceu da solidão e do silêncio plácido
Emergiu dos mares de dentro
Soprou as sementes cansadas
Elegeu as mais simples palavras
Porque nada mais havia que fazer
A poesia veio de longe, da praia
Ventando
Veio também do redemoinho e do abismo
Veio da falta
Veio da ausência
Da violência veio, sim
A poesia cuspiu blasfêmias
Queria dizer
A poesia queria dizer o que só o silêncio diz
A poesia foi mal escrita, mal entendida
Mal amada, mal dita
Rompeu palavras
Mitos, tempos
Imitou os pássaros
E os meninos de rua
Trouxe qualquer coisa à margem
Sem lapidar a pedra
A poesia foi suja, desbocada
Até xingou palavrões
Entreteve um e outro amante
Encantou, ludibriou, feriu
Suplicou: deem-me a voz!
Deem-me ouvidos!
A poesia arruinou o instante sereno
Girou os pensamentos claros
Sumiu quando ninguém mais via
A poesia, enfim, insatisfeita ainda
Mas cansada, bem cansada
Deitou-se aos meus pés
Disse boas noites
E dormiu
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