Poemas antigos: Dois pés do asfalto

Suja teus pés, bailarina
Suja-os sobre o asfalto
No meio dessa gente inquieta
Suja-te

Quando danças, bailarina
És tua
És do vento
És das chagas
Que as ruas sofrem
És a matéria primordial
És cada gota d'água
Que existe no mundo
És a tinta dos pintores desgraçados

Bailarina, quando danças
Tu não voas, não flutuas
Não transcendes

Tu estás na ponta dos teus pés
Teus pés ainda estão
No chão

És a presença
És o presente
És o querer, bailarina

Tua luz é mais do que a dos postes
Nesse cair de tarde

Bailarina, tu iluminas
Teu próprio caminho
Teus próprios pés dançarinos
Teu bailado incontido
Rugido de animal

Teus giros rodopios
Movimento infinito
Preenchem esses vazios
Dos buracos no asfalto

Ah, que graça
Que alegria
Tem essa mulher, a Vida
Quando, como tu, bailarina
Giramos, rodopiamos
Dançamos- e a dança é só
O que há

Sê sempre assim, bailarina
Sê sempre assim: bailarina

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