Reflexão

Meu corpo banha-se ao mar.
Lá no alto, sempre alta
Lua nova
Perlustra o mar.

As nuvens fizeram esforço descomunal:
São poças.
Rajadas de vento, muito forte vento
Trovoadas intrépidas, luzes cósmicas.

Alguns peixes pululam de alegria
Enquanto vê-se ainda no horizonte
Restos mortais do velho dia.

Minha mãe lunar vela meu sono
Vê como eu afundo
Ilumina meu rito profano
Uiva, sibila, grasna
Bodeja.
Em círculos a besta me corteja
Diz blasfêmias de amor
Cacareja 
Mostra a bocarra acidentada
E, desgraçada, me beija.

Longe de mim
A imagem do infante:
Beleza divina da besta!
Estende seus braços, acena
Conquista com modo galante
Depois me rejeita.

O infante é o meu dom
Meu romantismo e meu ofício
É o refletir da lua alta
No mar em que me banho.
O infante é o deus a quem
Me dou em sacrifício 
É o instante em que me ganho
É a iluminação e o artifício.

Meu corpo banha-se ao mar.
Lá no alto, sempre alta
Lua nova
Perlustra o mar.

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