As coisas que não fiz, esses versos que acabei de apagar, os pensamentos que vieram antes, o recorte de luz que insinuo muito indecentemente. Isso vem da minha total incapacidade de escrever com alguma brilhanteza. Há escuridão dentro de mim, há vãos, órgãos ocos, células mortas. De que maneira posso trazê-los à luz? De que maneira posso fazê-los presentes? A ausência ou a morte se fazem presentes na ausência. Daí não escrever o ausente, não poder introduzir, versificar, rimar, alinhar. Percebi que a minha escrita é cheia de elipses, cortes bruscos, palavras solitárias. São minhas incompreensões, com muita honestidade. Eu ainda não sei se o bom escritor é aquele capaz de dizer ou aquele capaz de não-dizer. Até porque entre dizer e não-dizer há uma frágil membrana, muito corruptível. Também não percebo a razão de estar aqui falando dessas coisas desimportantes. Necessidade, pode ser. Tédio, pode ser. Ou o buraco querendo arrastar para dentro. O que não sei. E isso é o que não importa. Agora me detenho em um impasse: prossigo ou é já hora de terminar? Iluminação total ou penumbra? Oh, esse outro que fala por mim!
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