Vivia semanticamente. Poeira dá alergia, faz espirrar. Sapato é pra calçar. Livro pra ler, bolsa pra carregar, vizinho pra chatear, matéria pra aprender. O sons das palavras significam palavras, e as palavras significam alguma coisa que não palavra, a não ser a a palavra palavra, que significa palavra. Tudo tem algum sentido, e ai de quem não souber expressá-lo concisamente. Se fala demais, é verborrágico ou prolixo, se fala de menos, tem vocabulário insuficiente. Palavras estão para seus significados, nada mais. Outro dia, passeando com seu triste cachorrinho, viu um belo pôr-do-sol. O que significava aquilo? Sorte, má sorte, começo, meio ou fim? Ele pensou um pouco, olhou pro cachorrinho, que já estava mui amuado, e entendeu que aquele pôr-do-sol significava, denotativamente, o fim do dia 23 de abril, e, conotativamente- ele tinha essa sofisticação-, significava a transformação de sua própria vida. A partir dali, ele viveria poeticamente.
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