Busco escrever, de agora em diante, até a última palavra, um texto indecifrável. Os loucos por enigmas nem precisam desperdiçar tempo: é precioso, escasso, um dia vai ser trocado por dinheiro (ó, mas já não é?!). Não há chaves, não há portas, não há respostas. O que quer descobrir, então? Eu já tentei, já dei duro para fazer alguma coisa sair. Saiu, bem pouco. Um pouco de suco. Mas o âmago jamais poderá ser retirado. Aí eu morro, que pena. Eu sofro demais por não poder dizer nem um décimo do que preciso. Mas isso eu vou resolvendo: lendo, vivendo e aprendendo. Prometo que um dia serei boa, uma boa menina e uma boa escritora. Daqui a dez anos estarei escrevendo um quinto do que preciso, dizem as estatísticas. Enquanto isso, codifico e decodifico, mas isso é só cá entre mim e mim, certo? Nada de tentar decifrar, estou prevenindo. Mas posso ser ainda assim complexa e um tantinho contraditória? Divido com você(s(?)) a angústia que me atormenta. Hoje vi o sol, ele estava já se pondo, e alguma coisa dele refletia nas nuvens dançantes, acima do morro. Eu estava ouvindo "Liebestod", a parte final de "Tristão e Isolda", do Wagner. Aquele troço palpitante e árduo no peito, aquele fulgor que precede o final, a dor e a exaltação de ver e ouvir sozinho uma coisa tão bonita. Eu poderia morrer naquele instante; minha vida já teria sido completa. Mas, ainda bem, não morri. Agora tento escrever o instante. Vivo outra grande palpitação. Sempre foi assim, percebo. Desde pequenina, respirando as coisas até o último suspiro. Sou uma romântica, tenho que me perdoar por isso. Apaixonada, completamente apaixonada por essa vida desgraçada (tento quebrar o romantismo, tornar agridoce esse excesso de glicose), apaixonada pelos instantes aos quais me lanço em sacrifício, apaixonada pelo simples fato de poder viver apaixonada. Nessa madrugada, depois das duas, escrevo mais uma das minhas cartas de despedida. Sim, tudo o que escrevo é como se fosse por último. Vim a saber hoje que dois colegas de escola morreram no último domingo, ambos aos dezenove anos. Sei que viveram grandes instantes, viram coisas bonitas, sorriram e choraram de vida. É o que me conforta. No entanto, continua sendo atordoante pensar na morte dessas duas pessoas, na nossa fugacidade, na fragilidade da nossa existência. O pôr-do-sol que vi foi também para eles, na minha imaginação. Mais uma vez, não tente(m) decifrar. Apesar de indecifrável, esse negócio pode ser belo, se assim desejar(em). Por isso divido esse caos: tenho a esperança de caotizar a vida de alguém. Não posso ser covarde. Tenho que dizer, mesmo que incompleto, fraco ou indigente. A vida reclama coragem! Apenas isso.
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