Eu, feminino

Eu, feminino. Eu, loucura, paixão, desventura, caos, ritual. Eu sou feita de gritos e rasgos, de flor e despedaços. Há muito tempo estive enclausurada. Deixaram-me trancada, pelo bem da civilização. Aprisionaram-me porque sou ventania (destruo casas, lares, tribos, sociedades inteiras). Fui bruxa, já fui ao fogo, queimei, virei pó, retornei. Fui cigana, catavento e cor. Ardorosa, e sempre. A arte é meu dom, mas ai da civilização. Irritados, eles me esconderam. Surrupiaram meus pincéis, minhas lágrimas, minhas palavras- ah, não pude ser poeta. E o que mais: sufocaram meu gozo. Era flagelo atrás de flagelo, mordaça e mordaça. Já usei espartilho, já chorei escondida. Continuei respirando, entretanto. Hoje voo, canto, escrevo, enlouqueço e gozo. 

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