413 feliz

Sorriram num ônibus cheio ao entardecer de uma sexta-feira, Aterro do Flamengo. O ônibus acho que era o 413. Estava lotado, o dia quente de tarde, o trânsito que viria na Rio Branco seria o de sexta. Enfim, razões para estresse tínhamos três, no mínimo. Eu não tinha rolado a catraca, nenhum espaço do outro lado. Talvez, pensei, se eu girasse a roleta, alguém sairia ferido dali. Ou melhor, não sairia. Nenhum espaço do outro lado. Eu levei um tempo pra notar, mas estávamos em Botafogo, onde o mar é muito bonito, podremente bonito. Até já estava começando a me arrepender de ter entrado naquele 413 indecente, quando, com muito jeito pra não machucar ninguém, virei para o lado esquerdo. Vi o mar. Veio um sorriso, depois outro, e mais outro, shuaaass, como onda. Esqueci as coisas ruins da viagem. Eu e meus colegas de aperto. Virei minha cabeça com muito cuidado pra não amassar ninguém e reconheci sorrisos nos rostos de umas três pessoas. As bocas estavam com dentes à mostra; algumas até salivavam de contemplação. Não restava dúvida: eram mesmo sorrisos. O ônibus avançou pelo Flamengo, no compasso da tarde, devagar e fugaz. Depois de alguns minutos não contados, chegou a Rio Branco. Várias pessoas desceram, eu girei a roleta, encontrei um cantinho pra ficar, e o sol se pôs. Estava sorrindo. 

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