Do conhecimento

Um lápis na mão, duas ideias na cabeça e mil maneiras de dizer. Escolho uma e me arrisco: o caminho escolhido pode não dar em nada, beco sem saída.
As duas ideias que tenho- uma a força motriz, a outra a realização em grafite da primeira- têm tudo a ver com minha ida ao cinema e minha volta à Praça Afonso Pena, dessa vez com um livro nas mãos. O filme a que assisti, na verdade, apesar de impressionante à sua maneira bem peculiar, não foi tão marcante como as visões fugazes das ruas. Eu fui sozinha, observei pessoas e cantos, esgueirando-me como um gato subterrâneo. Pode parecer exagerado, mas ir sozinha ao cinema é mágico, e os sentidos depois da sessão ficam mais aguçados. Como não há com quem comentar o filme, tento encontrar nas coisas, as mais evasivas e silenciosas, cúmplices de uma descoberta igualmente silente. 
Então: depois do cinema tomei o metrô, e minha alma viajou feliz e flutuante. Há tempos não me sentia assim, com o riso frouxo e o coração repleto de borboletinhas granuladas. Virei para a rua da Flores, nenhuma atenção nas flores. Estava muito distraída. A caminhada evoluiu desse jeito, de distração em distração. Até que cheguei em casa, peguei um livro e saí rumo à Praça Afonso Pena.
Lá, era o sol que caía. Tarde- quarta-feira. As crianças brincavam sem tempo, ruidosas e inquebráveis. Eu, de novo, observava, longe demais. Mas Nietzsche estava em minhas mãos e, como de costume, me martelava, pouco a pouco. Veio enfim a questão que se lança sobre esse caráter mesmo da tarde, eu na pedra, olhando as crianças. Conhecer, assim de longe, criando aura e poeira. Desde que me lembro, é assim que tento conhecer o mundo, me envolver com ele: sendo diferente dele. A distância, além de confortável e apaziguadora, me pareceu até hoje necessária para o verdadeiro conhecimento. A ideia era: é mais fácil conhecer o furacão estando fora dele. Era, já. era. Foi a martelada na minha cabeça.
Lendo mais do texto, um ensaio do Gilvan Fogel sobre "Do imaculado conhecimento" do "Assim falou Zaratustra", não pude deixar de pensar no "muso do Sujinho", aquele personagem que já apareceu aqui algumas vezes. Fiquei me perguntando: o que ele é para mim afinal? Depois de ler esse texto, me atrevo a dizer que ele é uma imagem. Uma imagem destituída de história e que reverbera com crescente beleza na minha imaginação. Beleza essa que eu proclamo pomposamente, com os dois pés num pedestal; beleza que eu invento e em que acredito como dádiva. "Eu fui capaz de ver aquela beleza", me engano. Eu espero todos os dias pelas quatro e meia da tarde, me sento confortavelmente e aguardo a chegada do "muso". Ele aparece, quase sempre pontualmente, como se fosse mágica, como que por acaso. Não é acaso, não!
Eu desejo conhecer, mas até hoje conhecer para mim foi guardar distância e ver o "todo", sem tocá-lo ou provocar mudança. Um muso, ou uma musa, é intocável, inatingível, e a beleza que criamos para ele nos ilumina como se fosse própria dele. Aí temos a ilusão de que conhecemos: a coisa se revelou diante de nós, os bem-aventurados observadores.

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