Cara ou coroa? (para uma trapaceira)

"Se não invento a alquimia de transformar esta imundície em ouro, estou perdido." 
(Carta de Nietzsche a Overbeck, 25/12/1882)


Escrevo para você, Liana, que vive num futuro distante.   
             Você tem 69 anos, é triste e amargurada. Seus sonhos de adolescência e juventude não foram realizados, nenhum deles. Aquele sonho de ser escritora afundou na Baía de Guanabara, junto a tantos segredos e blasfêmias. Você nunca acreditou na sua vocação, e o excesso de autocrítica a impediu de seguir em frente. Você fraquejou, deixou-se levar por ressentimento e medo. Aquelas palavras de Nietzsche continuam martelando em sua cabeça até hoje. Você sabe bem o que é, você sabe bem que é o tipo mais desprezível de ser humano que há. Pérfida, insidiosa, sorrateira, subterrânea, notívaga, infeliz. Não pôde dar à luz, enclausurou-se em um apartamentículo miserável; escreveu meia dúzia de porcarias que ninguém leu, comprou o mesmo pão que o diabo amassou todos os dias, durante trinta anos. Seus amigos tentaram, em vão, levá-la pra sair. Você recusou-os todos, disse desculpas muito bem arquitetadas e passou as noites sozinha, elucubrando. Lúgubre é esse seu apartamento, de onde não se vê nada além de um muro pichado e uma janela sempre fechada. Nada de beijos nos apartamentos. Você é feia, não se cuidou, envelheceu do pior jeito: cinza. É magérrima, come muito pouco, se alimenta de rancor. Seus olhos não tem vivacidade nenhuma, são verde-lama. Seu cubículo é desorganizado, as pareces racham cada dia mais, as goteiras nunca param de chover. Há papéis por toda parte. Cartas que você escreveu pra ninguém, poemas que você nunca teve ânimo de terminar, desenhos que você nunca desenhou. Na geladeira não há comida; na pia você esqueceu de comprar o sabonete. O telefone, aparelho obsoleto que já não funciona mais, você nem se deu o trabalho de tirar na mesa. Trim-trim. Um dia ele tocou, mas faz muito tempo, e já se foram várias teias de aranha. Você é fraca, tem várias doenças, no entanto, não vai ao médico. Seus ossinhos são frágeis, osteoporóticos; você sabe que não vai durar... Você tem 69 anos, não tem ninguém além da velha do quinto andar, que, vez ou outra, aparece pra contar umas boas fofocas. Ela só fala asneiras, você sabe bem, acha tudo um saco, por que escuta?
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           Você tem 69 anos, é feliz e grata. Seus sonhos de adolescência e juventude foram realizados, alguns deles. Aquele sonho de ser escritora navegou pela Baía de Guanabara, junto a tantos amores e poemas. Você acreditou na sua vocação, e o excesso de autocrítica a fez seguir em frente. Você fraquejou, às vezes, mas não se deixou levar por ressentimento e medo. Aquelas palavras de Nietzsche continuam martelando em sua cabeça até hoje. Você sabe bem o que é, você sabe bem que poderia ser o tipo mais desprezível de ser humano que há. Pérfida, insidiosa, sorrateira, subterrânea, notívaga, infeliz... Mas você descobriu que há escada entre o subsolo e a superfície. Deu à luz- você se deu à luz! Enclausurou-se num apartamentinho, durante algumas semanas, para escrever uma meia dúzia de contos. E, nesse tempo, de tardinha você saía pra comprar pão e dar umas voltas pelas ruas cheias de gente. Seus amigos tentaram levá-la pra sair. Você disse que não, estava muito ocupada com o novo livro, tinha que ficar reclusa por um tempo; entretanto, aqueles malandros cheios de lábia te convenceram, e você foi com eles pra roda de samba. Sambando você retorna a seu apartamento, onde, da janela, dá pra ver a rua e a gente. E beijos nos apartamentos. Você não é feia, também não é bela, mas se cuidou e mantém a vivacidade nos olhos verde-lúmen. É ainda magra, come pouco, mas come bem. Seu "cubículo", é assim que você chama seu apartamento, é meio desorganizado, mas as paredes não racham e as goteiras já foram consertadas. Há papéis por toda parte. Cartas que você escreveu pra ninguém (quem escreve cartas hoje em dia?), poemas que você ainda não terminou e desenhos que você apagou- você desenha muito mal! Na geladeira não há comida. Você vai ter que pedir uma pizza. Na pia o sabonete que você esqueceu de comprar (quem mandou não fazer uma lista de compras?). O telefone, aparelho obsoleto que, porventura, ainda funciona, você não quis tirar da mesa. Trim-trim. Caramba!! Ele tocou, depois de tanto tempo. E já se foram várias teias de aranha. Você está bem pra sua idade, não tem doenças; no entanto, vai sempre ao médico. Seus ossinhos são bons, sem osteoporose (muito leite na vida); você sabe que não vai durar, pois a velhice está chegando. Você tem 69 anos e poucos mas bons amigos. E seus irmãos. E seus primos. E seu filho- Gael já tem 36 anos!- e a neta que está por vir. A velha do quinto andar, vez ou outra, aparece pra fazer fofoca. Você é gentil e escuta a velha por uns segundos. Ainda bem que o elevador para no quinto andar.
           Por que escuta? De repente, uma das fofocas da velha dá uma boa história. Quem sabe um conto? Coisa de escritora.

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