Com assombro eu vejo as mulheres e os homens de rua. Com assombro, medo e perguntas eu olho, olho fundo- a insônia do pensamento não me deixa dormir- e, às vezes, choro. São negras e negros, herdeiros do sofrimento e da miséria escrava. Muitos embebedam-se; a pinga esquenta, extravia, faz esquecer. Encolhidos em seus cantos imundos eles dormem, já exaustos do vício ou do ócio. Não importa se é dia ou noite. Dormem. Nada da nossa correria faz sentido para eles, nada do nosso consumismo, nada do nosso fim de ano. Estão alheios, longe, marginalizados. Não que eles não saibam o que acontece no nosso mundinho de jornal- sabem sim-, mas a dor e o sofrimento são tão grandes que os sufocam inteiros, e fica muito difícil pensar em outra coisa. A vida é real. A sujeira que junta não mente, nem os dentes que caem. Haverá sorrisos depois disso? Haverá, sempre haverá, mesmo que ninguém veja. Esses sorrisos serão a luz no meio do escuro, a flor que brota do cimento, a flor e a náusea. As mulheres e os homens de rua, cada qual com sua história, cada qual com sua linguagem e sua rima, são vistos como o resto que nossa sociedade produz. Parecem a nós criaturas multiplicadas, sem identidade, coisas iguais. Esquecemos que são humanos, e nem enterro eles têm. Quando o corpo morre, depois da luta e do desprezo, é jogado num lixão, junto a detritos os mais abjetos. Não há cerimônia, vela ou prece. O corpo perece, e é só. Indignidade na vida e na morte. Como? Como?! Como podemos permitir isso, que pessoas vivam dessa forma, sofram tanto e sejam despejadas como vil objeto?!
Esquecemos que o outro sorriu. A flor, a luz.
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