De madrugada renascemos. Tudo começa com um choro de vida e vai, aos soluços, até o completo re-conhecimento. Os outros foram embora; deixaram a nossa casa- vazia. Só o que resta são nossos pensamentos. Não há visão: está tudo escuro. O corpo rijo aos poucos se reconstitui; torna-se fluido e livre outra vez. Escorre do copo. De madrugada esquecemos nosso nome: não é necessário, pois apenas serve para nos identificar entre os outros. Classe social também não pertencemos a nenhuma; cor já não existe mais. Só nos restam os pensamentos. Que serão quais, afinal? Para o verdadeiro nascente da madrugada, eles nada terão a ver com cor. Está tudo escuro. Poderão ser o pipilar de um passarinho, ou o uivo noturno de um cão voraz, ou o som oco e ritmado do novo coração.
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