Dentre tantas pessoas,
tinha de ser ela. Tinha de ser ela a rodar a saia no meio da multidão colorida
e amarfanhada, tinha de ser ela a fazer malabarismos e acrobacias para alegrar
a vida dos pequenos que passavam. Era uma cigana, sinuosa, elástica e
peremptória como as outras. Portava no corpo esguio e queimado de sol panos
variados, de eras e tons diferentes. Seriam trapos velhos e encardidos não
fosse a habilidade das ciganas idosas em transmutação.
Nas noites de lua,
reuniam-se em terrenos vazios e lançavam as vestes sujas dos demais ciganos a
uma enorme e milenar bacia. As roupas chafurdavam na água quente e, depois de
algumas horas de ritual extático, com as ciganas enrugadas ao redor do
recipiente mágico, cantando em línguas do diabo, flutuavam novas, reluzentes e
cheirosas. As velhas recolhiam com calma cada uma das peças e punham-se a
retorcê-las para delas tirar todo o excesso de água. Feito isso, iam todas
dormir, a noite alta e sem som.
As roupas coloridas e
cheirosas, no entanto, não tornavam menor a pobreza. Balançando-se sobre seus
pés descalços, girando a saia de penduricalhos dourados, era ainda miserável.
Magra, olhos fundos e cabelos enovelados, encantava os transeuntes com o
movimento ágil e sensual de seu corpo jovem. Aos homens parecia a mais sedutora
das mulheres; às mulheres servia de inspiração. E a ninguém competia
adivinhar-lhe o sofrimento. Divertia os ricos e os pobres, preenchia as ruas
apinhadas com jovialidade e beleza. Se um dia se apercebessem de sua condição
miserável, não poderiam mais entreter-se. O corpo da cigana estava fadado a ser
para sempre um rodopio, uma mão dançarina, um catavento de cor que alegra as
multidões distraídas.
Rosana. Rosana era a
cigana dançarina, e a ela cabia angariar alguns trocados. Todos os dias, a
partir do amanhecer, apresentava-se nas ruas do centro da cidade, lançando o
ventre para todos os lados, inclinando a cabeça e dando saltos acrobáticos.
Brincava com o fogo como se fosse jogo de criança. Ora era ela quem o cuspia,
tal qual dragão encolerizado; ora era o fogo que dançava sob sua batuta. Rosana
sabia controlar o fogo: com um graveto na mão esquerda traçava linhas no ar, e
o fogo repetia imediatamente a movimentação manual. Os transeuntes olhavam
boquiabertos e, quase hipnotizados, jogavam moedas e notas dentro do chapéu
coco que a cigana colocava no chão.
No entanto, apesar do
misticismo e da habilidade com os elementos da natureza, Rosana sabia que não
nascera cigana. Ela suspeitava disso há muito, mas era incapaz de dizer a
característica que a afastava dos demais ciganos. Se fosse pela pele torrada,
ou pela ginga matreira, ou pelas vestes limpas, mas atabalhoadas, seria cigana,
a mais exemplar delas. Se fosse pelas unhas sujas, ou pelos olhos cansados, ou
pela voz profunda, seria cigana. O que a distinguia do grupo era desconhecido,
no entanto. Rosana sofria tentando eliminar a charada. Chegava às vezes a
perder o sono na busca pela característica. Quando conseguia dormir, era nos
sonhos que tentava descobrir a resposta, mas o galo da madrugada sempre impedia
que o sonho chegasse ao fim. Rosana passava os dias assim: do arrebol da manhã
ao arrebol da tarde, dançava e jogava com o fogo; do arrebol da tarde ao
arrebol da manhã, pensava insistentemente na sua condição.
Rosana, numa quarta-feira
de chuva torrencial, perturbada como sempre pela falta de resposta, decidiu
abandonar o ponto onde, naquele dia, fazia suas apresentações. Quase ninguém
passava, e aqueles que transitavam pelas ruas não paravam para ver a cigana. A
chuva caía com violência e ameaçava alagar o meio-fio. Rosana pôs-se a caminhar
pelas ruas abandonadas. Pensou por um instante no pão que os ciganos não
teriam. Aquilo a deixou triste- os ciganos reuniam-se à noite, depois de cada
um ter cumprido sua missão diária, e punham num cesto todo o dinheiro
conseguido-; contudo, não poderia culpar-se pela chuva. Se continuasse parada,
a quarta-feira seria realmente um dia perdido. Andando, encharcada até os
seios, ela observava as lojinhas e os armazéns vazios. Olhava com calma as
praças molhadas e as estátuas chorosas, talvez em busca de suas próprias
lágrimas. As ruas alagavam-se e, Rosana notou, logo estariam transbordadas.
Depois de alguns minutos caminhando, a cigana parou perto de um chafariz
desligado. A chuva escorria pela pedra e misturava-se à sujeira esverdeada,
produzindo um espetáculo sublime. Em sua contemplação, Rosana não via que
alguém, com a mesma atenção e curiosidade, a observava.
A mulher que a escrutinava
era gorda e velha. Os seios saltavam do decote, a meia-calça marrom estava
prestes a arrebentar-se, e o cabelo grisalho, preso num coque, ameaçava
soltar-se. Segurando um guarda-chuva enorme e antiquado, sentindo a água entrar
pelos sapatinhos envernizados, a velha grunhiu antes de desprender o choro
contido durante anos. As pernas bambeavam, e as mãos, já frágeis e sem
precisão, tremiam descontroladamente. Por pouco o guarda-chuva não foi ao chão.
A velha soluçava. A cara vermelha contorcia-se em caretas engraçadas, enquanto
as lágrimas caíam a todo vapor.
Rosana não via o choro,
só via a chuva. Encantada com o chafariz, como se fosse criança outra vez, não
resistiu à tentação e pulou para dentro dele. Iniciou então sua dança cigana,
levantando lodo e lama. Pulava no chafariz, entre gargalhadas sonoras e
contrações no ventre.
A mulher velha, diante da
cena, mesmo com as pernas e mãos fracas, reuniu toda a energia que lhe restava
e iniciou uma caminhada dolorida, mas segura em direção ao chafariz encharcado.
Tinha sido uma jovem impetuosa, sensual e apaixonada como a cigana.
Andou com elegância e
segurança, até que foi percebida, na metade do caminho. Rosana virou-se para
ela e soltou um grito agudo e infernal, que lançou os pombos teimosos em
revoada para a outra calçada. Assustada como as avezinhas porcas, a velha
recuou dois passos e ficou estagnada na calçada. Rosana também ficou imóvel,
imitando a estátua no topo do chafariz. As gargalhadas da cigana deram lugar a
um silêncio quase insuportável. Ambas as mulheres tinham as batidas do coração
aceleradas, descompassadas, imprevisíveis. Olhavam-se sem parar. Rosana
percebeu que era chegado o momento da descoberta: aquela velha certamente tinha
a resposta que há tanto procurava. Sentiu-se como em seus sonhos, aqueles em
que o grito do galo incidia sem pena alguma. Durante o sonho, Rosana tinha a
sensação de estar perto da resposta. E ia feliz e esperançosa, até que a manhã
irrompia e levava seu sono. Dessa vez não; a manhã não viria, o galo não
berraria. Nem seria um sonho.
A velha também fazia a
sua descoberta; tinha a certeza de haver encontrado o que a vida inteira
desejara. Mas como prosseguiriam quando a resposta estava tão próxima, tão ao
alcance das mãos? A ansiedade tomava conta das duas mulheres. O frio percorria
suas espinhas circularmente. Chovia. Foi então que, depois de alguns minutos de
pensamentos vagos e rarefeitos, Rosana saltou para fora do chafariz e, com toda
pressa, dirigiu-se ao encontro da velha. Ao chegar perto dela, sentir seu
cheiro de cigarro e flor, Rosana compreendeu a característica que a
diferenciava dos ciganos. Olhou bem para a mulher velha, olhou em seus olhos e
se viu nela. Foi um espanto. Os olhos eram do mesmo castanho claro e do mesmo
formato de amêndoa. Os cílios esparsos e as pálpebras fundas também. Rosana se
viu mais velha, gorda e nervosa. A velha, em Rosana, se viu jovem, esbelta e
nervosa:
- Virgínia, Virgínia
amada! A virgem que me foi tirada dos braços! A mais bela menina já vista!
Rosana era Virgínia.
Virgínia era Rosana.
A velha tomou Rosana nos
braços, apertou-a contra seus seios fartos e acariciou-a nos cabelos
emaranhados. Chorando, as duas iam conhecendo-se pelo tato, pelo olfato e pela
audição:
- Mamãe, mamãe! Como pude
esquecer a senhora?- falava entrecortada pelos soluços- Eu sabia! Não sou...
não sou cigana!
- Não! Não é! Virgínia!-
o peito inflamava-se de amor.
- Meus cabelos... meus
cabelos não serão azuis! Eu sabia, eu sabia! Por isso não encontrava a solução:
ainda sou jovem!
Rosana e sua mãe deixaram
a praça do chafariz e foram juntas para o apartamento da velha. Amélia. Morava
em um sobrado sórdido, onde putas encontravam-se para embebedar-se e contar
seus casos de amor.
Rosana nunca vira um
lugar como aquele. Os cheiros de perfume ordinário e de cachaça misturavam-se e
tornavam o ar irrespirável, e os tapetes empoeirados, onde muitas meretrizes
sentavam, eram tingidos de cores inexistentes.
Mas estava claro: Amélia
era velha prostituta, amável como uma mãe e vulgar como toda puta. Entre as
suas, Amélia recuperava vinte anos de sua vida. Desbocada e bem-humorada, pouco
lembrava a mãe chorosa que Rosana encontrara na praça. Logo depois de entrar em
seu apartamento, cumprimentou todas as moças com dois beijos na bochecha,
disse-lhes infâmias aos ouvidos e serviu-se de um gole generoso de cachaça vil.
E depois desse ritual putérico, apresentou às jovens a filha encontrada. Contou
toda a história, com emoção nos olhos:
- Quando eu tinha lá meus
20 anos, assim, igual a vocês, eu ganhei meu neném. Naquela época, eu tava
enrabichada com um rapazinho bonito, de dente branquinho e cabelo ondulado. Eu
já era puta, vocês sabem. Mas tinha esse rapaz que eu me apaixonei. De verdade!
Achava que ele ia me tirar dessa vida, mas era mais um canalha que só queria se
divertir. E de graça! Depois que eu contei pra ele da gravidez, ele sumiu. Eu
fiquei arrasada, sabem como é. O filho da puta nunca mais voltou, nunca deu
explicação. Mas eu tive o neném. Aí veio essa preciosidade, minha Virgínia. Só
que vida de puta é difícil pra cacete, né não? Aí a Virgínia, quando tinha seus
oito anos de idade, bonita e muito precoce, saiu um dia pra pegar o pão da
gente e nunca mais voltou. Eu fui atrás dela, dei queixa na delegacia, procurei
por tudo quanto é canto, perguntei pra todo mundo, mas ninguém sabia. Até que
eu tive uma pista: me disseram que tinham visto uma menininha assim que nem
ela, da idade dela, dançando como cigana no centro da cidade. Eu ficava lá todo
dia, mas não tinha ninguém como a minha filha. Eu pensei: os ciganos que
levaram minha filha devem ter feito magia bem braba pra ela ficar invisível pra
mim, só pode ser isso. Depois de dezesseis anos, dezesseis anos, quem eu vejo,
dançando no chafariz da praça: Virgínia, já adulta, bonita como sempre e
molhada de chuva.
A essa altura, Amélia
chorava, olhando para sua menina crescida, sofrida e suja. Rosana. Observava
como a mãe gesticulava, movia os lábios e cruzava as pernas de dois em dois
segundos. Ao mesmo tempo, tentava-se recordar de como havia sido sequestrada
pelos ciganos, de como havia aprendido a dançar e a controlar o fogo. Todavia,
assim como em seus sonhos frustrados, não conseguia achar resposta.
Depois de uma hora
ouvindo o quanto Amélia sofrera com o desaparecimento da filha, as putas
começaram a deixar o lugar para trabalhar. Iam em pares, ou em trios, e
despediam-se de Amélia e Rosana com dois beijinhos carinhosos. Às nove da
noite, já não havia nenhuma jovem puta.
Amélia, depois de servir
um modesto banquete à filha recém-achada, preparou-lhe um banho e separou
roupas para ela. Rosana despiu-se e mergulhou o corpo na banheira enferrujada.
A água morna acalmava a pele e a respiração. O odor agravável de sabonete
invadia-lhe as narinas e deixava por dentro uma sensação boa de limpeza. Naquele
novo ambiente, Rosana tentava lembrar-se de como se tornara cigana. Não
conseguia. Apesar de sempre ter sabido que não nascera cigana, não se lembrava
do que viera antes, exceto da mãe. Como pode ter esquecido se já tinha oito
anos quando foi sequestrada? Será que os ciganos usaram de magia para fazê-la
esquecer? Ela já tinha descoberto a característica que a fazia diferente das
ciganas: os cabelos que não seriam azuis. Ela não era cigana, não era. Mas
dançava como uma, saltava como uma, cantava como uma, cuspia fogo como uma.
A água começava a
esfriar, e o também o pensamento. Rosana, enrugada pelo tempo na banheira,
saiu e enrolou uma toalha felpuda em torno de seu corpo enxuto. Foi até o
quarto, onde uma cama gostosa estava pronta para ela. Deitou-se, e logo o sono
veio.
Sonhava com o dia em que
os ciganos vieram a seu encontro. Diziam coisas como "Você é a menina mais
bonita que já vimos!", "É uma ciganinha!", "Você vai
rodopiar, cantar e voar como um beija-flor!", "É como nós, ela pode
cuspir fogo!". "Rosana é seu nome. Você é como a rosa, bela e
espinhosa.". Rosana vivia aquilo tudo de novo. Voltara a ter oito anos.
Seguiam-se cenas e mais cenas da sua vida errante de cigana: os rituais, as
refeições coletivas, as danças e os cantos em línguas desgraçadas. Rosana
tentou, então, controlar seu sonho e voltar para o tempo em que não era cigana,
mas a filha de uma pobre meretriz. A cena em seu sonho mudou, e ela via agora
uma casa escura e empoeirada. Na casa, havia uma velha escada. Rosana sentiu que
no segundo andar descobriria quem era. Subiu lentamente, degrau por degrau, até
que chegou ao segundo pavimento. De repente, à sua frente, berrando intrépido,
o galo. Era de manhã.
Rosana acordou
sobressaltada, e o canto do galo reverberava em sua cabeça. Agora tudo fazia
sentido. Tinha de ser ela. Levantou da cama, foi ao quarto da mãe adormecida,
beijou-a na testa, vestiu as roupas imundas, deixou o sobrado e pôs-se a dançar
na rua. Dessa vez, rodopiou tanto que cumpriu o seu destino. Tornou-se um catavento
de cor.
Comentário de pai não vale, impossível ter isenção...
ResponderExcluirMas, vou dizer assim mesmo:
estória linda, cheia de poesia, rica em referências, apesar de ser breve. O que têm em comum ciganos, putas e cataventos? Desconfio que seja aquela mesma matéria que permeia todos os seus escritos, aquilo mesmo que se faz presente em todas as nossas intermináveis e deliciosas conversas. Sabemos o que é, ou, ao menos, desconfiamos, só não sabemos que nome tem nem a sua cor...
O desfecho da estória é surpreendentemente belo e mágico, fica a imagem da ciganinha se tornando catavento, se desfazendo no vento, no seu rodopiar voador... lindo mesmo!
Você já tem mais que meio caminho andado, você tem estilo e isso é pra pouquíssimos!
Ainda bem que avisei que não seria isento! Te amo, linda!