Hoje é o dia da minha morte. Já os dedos gelam, já o coração sossega e o pensamento mingua. A carne flébil e frouxa, resignada ante os bichos devoradores, começa a expelir aquela substância nem sólida nem líquida e de odor lastimável que, de lembrança, associo ao anélito das sextas santas. Perco, num crescendo, a volúpia das belas manhãs e a graça ingênua das crianças nuas. O corpo velozmente torna-se noite, esfria, silencia; volta o mistério. Quem sou eu? Na juventude me fazia essa pergunta e, a cada vez que olhava para dentro, encontrava outra resposta. Quem é você? Não podia responder. Quem sou eu? O eu toma várias formas conforme a luz. Quem é você? Eu não sou eu, não sou você. O que sou então, senão consciência de mim? Um corpo apodrecendo.
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