Eu tive um primeiro amor. Um primeiro amor muito digno, creio eu, com toda a doçura e a delicadeza que um primeiro amor inclui. Faz quase dez anos, agora que parei para contar. Caramba! E eu cresci. Os tempos hoje são outros, mais difíceis, mais sofridos. Sou um resquício das inquietações pubescentes e das perguntas sem resposta. Também tive outros amores, doces, talvez, mas não tão ingênuos. Por isso, a lembrança de um amor infantil é tão vital para meus pulmões. Não posso esquecer a ternura, o olhar hipnotizado e as piscinas clorídricas. Não posso esquecer que um dia amei assim, sem lembrança, sem comparação. Era só encanto.
Naquele tempo, perdido no trecho "dez anos atrás", apareceu no clube que frequentava- e frequento até hoje- um menininho muito gracioso e de sorriso simples que, num primeiro momento, passou despercebido por mim. Não foi amor à primeira vista, como poderiam supor. Ele ainda não tinha nome; às vezes eu o olhava, sem interesse maior. Era apenas observação descompromissada. Ou pelo menos eu achava isso. O certo é que o amor só viria depois, a partir de uma pequena confusão e de um sorriso aéreo que ficaria como a imagem mais marcante daquele menininho, o Yuri. Eu descobri seu nome quando um outro menino, nada gracioso e amigo do Yuri, veio falar comigo. " O Yuri te acha bonitinha!". Tá. Que legal. Mas.. Quem diabos é Yuri? E mais: quem diabos é você?! Atordoada, sem compreender nada do que aquele menino assustador dizia, eu tateei com os olhos todos os ladrilhos da piscina à procura do tal do Yuri. Quando o achei, achei mesmo. Alheio às bobagens que o amigo dizia e à minha confusão, Yuri olhava pro céu, sorridente, puro, mágico. E, naquele instante, percebi que ele não tinha falado nada sobre mim, afinal, Yuri não estava no planeta Terra. Outro menino, mais velho e talvez irmão do Yuri, confirmou minha constatação. "O Yuri não disse nada. É o Paulão que está dizendo!". Paulão era o menino nada gracioso. Com esse aumentativo, dava pra ver que doçura não era seu forte. Paulão, nome pouco convidativo, me apavorava. Saí correndo, fui embora. Minhas perninhas de rã me levaram pra outra piscina. No entanto, as coisas jamais seriam como antes. Chegou o primeiro amor. Os dias foram caminhando e eu amava o Yuri. Amava-o quando ele estava na varanda do segundo andar do restaurante do clube, eu cá embaixo, flutuando na piscina, sem prestar atenção em mais nada. Amava-o quando jogava pokebolas vagabundas com o amigo Paulão, e quando atirava jatos d`água com sua arminha de brinquedo, e quando morria de rir com seu pai, e quando chegava perto e me fazia correr desesperada. Amava-o em pensamento, amava-o todos os dias. Lembro bem do sinal que tinha logo acima dos lábios e dos cabelos escuros e escorridos. Lembro do sorriso bonito e do jeito mundo da lua que ele tinha. Uma vez, pronta para entrar no parquinho do clube, eu dei com uma das imagens mais belas da minha infância, quiçá da minha vida. Yuri no balanço, cabeça baixa, pensando em qualquer coisa, distraído como de costume, com os pés parados, sem provocar impulso. Daquela imagem ficou uma possibilidade: será que ele estava pensando em mim? Será que Yuri também gostava de mim? Olha, disso eu nunca vou saber. Esse é o mistério dos amores platônicos.
Que história bonita, Liana. Isso me lembra de vários pequenos amores que tive quando viajava para fazendas do interior do Rio... Toda viagem era um novo amor pra preencher a mente e o coração. A verdade, é que a gente gosta de sonhar. Né?
ResponderExcluirSim, essa é uma das lembranças mais bonitas que guardo da infância! Ah, os pequenos amores... Que bom que você tenha vivido alguns. Eles fazem tão bem, né? Depois quero ouvir as histórias desses amores que te inspiraram um dia. Muito obrigada pelo comentário e por ter me motivado a escrever. Um beijo!!
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