O homem sem palavras

Em 15 de junho de 2003, caiu na Terra, planeta de dimensões modestas e camada de ozônio esburacada, uma figura muito curiosa. A essa altura, o mundo já tinha dado muitas voltas;  a roda, o macarrão, a bicicleta ergométrica e o saci pererê já tinham sido inventados, e as pessoas desde muito pequenas conheciam um bom número de palavras. A Terra era o planeta das palavras. Havia palavras pra tudo quanto é canto, inclusive o canto dos pássaros. Piu-piu piu, fi-fi-fiuiiiii, bem-te-vi... Era palavra que não acabava mais: para- raio, para- quedas, para-choque, para-metil- benzeno, paraninfo, parabéns!, parafernália (e muitas outras). Para onde quer que se olhasse, lá estavam elas, as palavras. Nos outdoors, vinham em dúzia, organizadas segundo técnicas obscuras. Nas muretas, em garranchos negros de um tal de Billi. Nos papéis, em letras azuis de mãozinha dada. E havia ainda as palavras faladas: em línguas, sotaques, registros e aprendizados diferentes. Essa abundância não parecia fazer mal, apesar de alguns alertarem para o excesso de pensamento, que é uma consequência do excesso de palavras. A verdade é que ninguém conseguia ficar um segundo sem pensar numa palavra, e isso às vezes enlouquecia. Uns submetiam-se a tratamentos pesados, outros apelavam para a meditação. Os escritores continuavam a escrever. Tudo no mundo era assim, palavra. Até que, em 15 de junho de 2003, veio ao mundo um menininho robusto, de cara amassada e choro como o de qualquer criança. Seus pais e parentes gargalhavam de felicidade, enquanto o mundo girava sem nenhum prognóstico de milagre. 
Os anos foram por seu caminho sem fim, e o menininho crescia saudável e cheio de alegria. Ao completar dois anos, numa comemoração colorida e barulhenta, uma tia perguntou quantos aninhos ele estava fazendo, ao que ele respondeu com um olhar sublime, mas sem palavras. Outra mulher, uma senhora gorducha e agasalhada, fez a mesma pergunta e obteve a mesma resposta. "Ele ainda não sabe falar?" A mãe respondeu com um sorriso simpático que não, e isso era normal, algumas crianças levam mais tempo que outras...
No entanto, o tempo foi avançando, e nada. O menininho não falava nada. Levaram-no ao médico pediatra, ao otorrinolaringologista, ao fonoaudiólogo, e nada. O menininho nada tinha, estava tudo bem. Tinha toda a capacidade de produzir sons, por sinal, muito bonitos. Mas não eram palavras. Levaram-no a outros doutores que nada tinham que ver com a criança ou a voz ou a fala, e nada. Então consultaram um psiquiatra, que não soube explicar o que havia. Nada. Os pais, já em desespero, resolveram apelar para forças superiores. Decidiram-se por conversar com o pastor da igreja que a mãe da mãe- avó do menino, portanto- frequentava. O pastor disse categoricamente que o problema do menino era o diabo. Uma sessão de descarrego e certamente ele começaria a falar (o menino ou o diabo? a mãe se perguntou). Fizeram o sugerido, porém nem o diabo nem o menino falaram, para decepção geral. Com a esperança despedaçada, os pais estavam prestes a resignar-se e aceitar que o caso não tinha explicação, como muitos outros por aí. Foi quando uma velha amarrotada disse que a mãe Cecília tinha a resposta, ela sempre tinha. A velha tinha aparecido de repente, no final da rua das begônias, causando susto nos pais do menininho. Certamente ela os acompanhara desde o início da rua e ouvira sua conversação. "A mãe Cecília tem a resposta. Ela sempre tem!". Deu o endereço da mãe Cecília e foi embora, tão sorrateira quanto ao chegar.

Continua...

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