Entre dois caminhos

Nessas andanças perdidas
Meu destino
Não sei
Se é para a esquerda
ou para a direita
Se tomo o caminho do
Céu
Ou vou pro inferno

O inferno, tenho certeza,

me manterá prisioneira
Grilhões, torturas
Entalhes numéricos
O fogaréu corrupto
Os gritos de pequena morte

Não poderei voltar.

Serei castigada eternamente
Talvez pelo diabo,
talvez por minhas próprias assombrações

O céu, em contrapartida,

é o paraíso promissor:
viverei junto às ovelhas
e às almas brancas sem castigo

Beberei da água mais pura

Não sentirei dor
Não terei vontade
Estarei na eternidade
Seja lá o que isso for

Mas

E se chegar o tempo
em que sentirei saudade
das loucuras cotidianas?
Se me lembrar da terra
Do asfalto
Da choradeira e dos orgasmos?
E se lembrar da voracidade,
das lanterninhas, dos beijos?

E se lembrar da poesia?!


São Pedro, abri os portões!

Quero voltar
a querer
Quero querer!
São Pedro, libertai-me
do paraíso forçado
Eu quero o corpo
Eu quero a alma
Quero o amor e a luxúria
São Pedro,
quero a gente das ruas
A abundância, os pedregulhos
Quero o grito e a algazarra
Quero o chão e o pincel
Quero a fagulha,
a chama, o fogaréu

Não quero a eternidade celestial!

Quero o instante efêmero
Quero os dias e as noites
Quero o riso
e o pranto

Deixai-me ir

Não quero o céu
Não quero o inferno
Quero viver!
Viver aqui
Mesmo que breve o incêndio

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