Alguém lê Baudelaire

Baudelaire, em minhas
mãos
as páginas gastas 
da poesia moderna
As páginas gastas da poesia
moderna
renovam-se 
à luz dos seres
que habitam ao redor

São alguns gatos malditos,

os espíritos reencarnados
dos poetas antigos

Outro: um jovem de nariz
contorcido, os pés sem sapatos
a sanha maior

Em seus ouvidos, o ruído
do Amor falante e longínquo- Eco,
a amante morta de Narciso

Os olhos do jovem:
negros, salivares
famintos

E, neles, a ebriedade retorna
Como absinto
As lágrimas jorram, verdes,
amargas
alcoólicas

Nos pés descalços,
a volúpia eólica 
e crespa
da palma do sul

No cabelo azul,
a dureza simbólica
e fresca
da palma do sul

É o vento diurno

Os gatos, por seu turno,
deixam-se acariciar
Aninham-se,
endemoniados,
aos pés do rapaz
E, em sua própria língua,
lânguida e úmida, como de mulher,
dizem ao jovem: 
"Alguém lê Baudelaire!"

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