Solidão. Bela palavra.
Todos somos sós. A vida, a misteriosa, infinita e ideal, é exatamente como a
vida miúda que acontece todo dia, sem holofotes ou narração especial. A vida
acontece e é só em alguns instantes- de inspiração ou clarividência- que é vivida
inteira. A vida, então, retumba em cada parte do corpo. Esmaga o coração,
revira o estômago e estremece os ossos frágeis. Dói. E como.
A vida universal é igual
à vida miúda. A gente sai à rua, atravessa sinais, tropeça no meio do caminho
(tinha uma pedra) e encontra meia dúzia de conhecidos. Com alguns gastamos mais
do que os quinze segundos do oitudobem. Perguntas sobre a família, sobre os
estudos, sobre o trabalho. Às vezes, um abraço. Dois beijos. Um aperto de mão.
E logo nos tornamos sós de novo, caminhando e caminhando. Acaso há um rumo? Um
destino? Compromissos, hora marcada, precisão? Eu ando sem pressa, sem ter pra
onde ir nem onde ficar. Flano, apenas. Ninguém me acompanha.
No caminho vou
distraída, pensando em casos mal resolvidos ou delirando. Vem o passado, vem o
futuro. O verbo no presente; apenas o verbo. Vou guiada pelo demônio das sete
horas, que nos oferece o vício dos caminhos iguais. As árvores são as mesmas,
os prédios, as calçadas, a confusão. Mas, sem que tivéssemos esperado, vem,
sorrateiro e implacável, outro demônio : o da contemplação. Aí dói. A beleza
das árvores, as mesmas, fere e envenena. A beleza dos prédios, os mesmos,
dilacera. A beleza das gentes, então, nos rasga inteiros, de dentro pra fora.
Ficamos vulneráveis, frágeis, nus para a maldade da vida. Não há quem nos
ampare, nos ouça. A beleza é única, irrepetível, impronunciável. Silenciosa.
A vida é descoberta,
depois coberta de novo e descoberta, como se a cada vez que se
escondesse, sofresse uma transmutação. E nesses instantes de iluminação, nesses
instantes em que o presente vem, para o mal ou para o bem, estamos sós.
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