Os pássaros

O olhar alonga-se. Vai da janela ao céu, como um pássaro. Repouso no beiral e voo infinito. O céu para o autor é uma tela em branco. Todas as cores cabem, e cabe a ele inventar a cor do céu. Azul é a cor de um milagre. Milagre da vida esse. Negro, é profundo e sorve o olhar. Laranja, o céu despede-se e, fugaz (fênix mitológica, talvez), renasce. Outro milagre. O autor escolhe a cor e escreve. Cinza. Cinza é o céu de hoje. Ainda no beiral, esperando a vida ou a morte, o pássaro mergulha o céu em pensamentos. Não é parte dele, entretanto. Assobia sereno e triste a canção dos homens. O pássaro descobriu, na madrugada de ontem, seu corpo destacado do céu. O pássaro é um (canta, pipila, cisca), o céu é outro: uma imensidão. Pássaro no beiral chora de tristeza pela descoberta. Está virando homem, bicho belo, mas triste. De que adianta voar se o céu não lhe pertence? O pássaro está virando homem. O céu é cinza. Canta uma modinha, depois um choro antigo e, então, uma cantiga de ninar. Adormece. Em seus sonhos, o pássaro, que é já homem, está no beiral; contudo, o céu não é cinza e lhe pertence. O pássaro, agora pássaro, deixa o beiral e voa. Voa somente, não busca, nem pensa. Voa, voa, voa. Mas, depois do sonho, o pássaro-homem desperta e triste se vê no beiral. O olhar alonga-se. Vai da janela ao céu, como um pássaro. O autor não sabe, porém, se o pássaro verdadeiro, não a figura de linguagem, vai voar ou não. Se o céu é cinza, que triste voo! E o céu ainda não lhe pertence. De que adianta? Apague o cinza, autor! Deixe a tela em branco e lance o pássaro ao voo. Ele, mesmo que homem, terá de cruzar o céu e, assim, preenchendo-o com sua própria cor, será parte do infinito. 
Será um pássaro.

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