Histórias de flores murchas

Meninos e homens de rua. Sujeira, crosta terrestre. E calçamentos descalços, e poesia. Na cabeça de um poeta, essas coisas são todas iguais. Marginais.

As histórias por trás de frases soltas, de versos insensatos e de traços ininteligíveis não permitem ainda que compreendamos tudo o que eles dizem, mas creio que, pelo menos, nos ajudam a sentir um pouco do que a pessoa- poeta, escritor ou mesmo eu- sentiu no instante da inspiração. Ainda que breve o incêndio.
Conheçam, pois, uma breve história.
Numa dessas minhas andanças, tantas e solitárias, vi um mendigo que falava alegremente de sua poesia. Não fiquei para ouvir mais; aquilo me bastava. Segui meu caminho rumo a porra nenhuma e, pensando, pensando e pensando, me vinham muitos exemplos de homens e mulheres de rua que escreviam poesia. Uma pergunta me pegou: a poesia leva à mendicância ou a mendicância leva à poesia? Era tão bela a pergunta que não me esforcei muito para respondê-la. Respondida, dissolvida. Cultivei a pergunta como uma flor genérica, afinal, não sabia nem a natureza nem a resposta à pergunta. Era muito bonita assim mesmo. A florzinha genérica de botão foi à senhora murcha. Aí tive que perguntar: a poesia leva à mendicância ou a mendicância leva à poesia? Meu pai pensou, pensou e pensou. E veio com uma flor muito mais bonita, talvez uma orquídea ou uma rosa azul. Olha, o que a mendicância e a poesia têm em comum é que as duas são marginais.
Acho que as flores também são.
E espero que eu também seja.

Comentários

  1. Nem orquídea, nem rosa azul... a flor mais bonita é você, Liana: a menina que come flores e bebe perfume e escreve com sangue. Sangue 'O' positivo e operante, como o meu. Meu sangue, minha carne, meu orgulho, minha amiga, meu amor, minha filha... somos assim, somos marginais... e sabes por que? Porque amamos incondicionalmente! Como Florentino Ariza...

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  2. Você deve saber que estou chorando, não é? Meu pai, meu melhor amigo! E não podia ser diferente, afinal, temos esse mesmo sangue amoroso, apaixonado e perfumado. Somos como Florentino Ariza, comendo as flores e bebendo perfume. Te amo!

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